A Caminhada de Ogum celebra a ancestralidade e a resistência das religiões de matriz africana em Paulista.
(Imagem: gerado por IA)
As ruas de Paulista, na Região Metropolitana do Recife, voltam a ser ocupadas pelo toque dos atabaques e pelo manto da ancestralidade com o início da 11ª edição da Caminhada de Ogum neste domingo (12). O evento, que já se consolidou como um marco no calendário cultural e religioso da cidade, vai muito além de um ato de fé; é uma afirmação política e social das religiões de matriz africana no espaço público.
Idealizada pelo terreiro e Ponto de Cultura Ilê Asé Omo Ogundê, sob a liderança do Bàbálorixá Hypolito de Ogum e do Bàbákekerê Dácio de Oxalá Tàlàbí, a iniciativa expandiu sua programação para 2024. O que antes era um cortejo pontual transformou-se em um ciclo de formação e diálogo que se estende até o dia 26 de abril, promovendo o encontro entre a tradição nagô e a comunidade local.
Na prática, o evento busca desmistificar preconceitos e fortalecer a identidade de quem vive o cotidiano do terreiro. Com o apoio do Governo de Pernambuco e da Prefeitura do Paulista, a Caminhada de Ogum reforça que a cultura afro-brasileira é parte fundamental da construção da cidade, exigindo respeito e visibilidade.
O que muda na prática com a formação cultural
A grande novidade deste ano é o foco na transmissão de saberes. A partir deste domingo, o Ilê Asé Omo Ogundê abre suas portas para oficinas gratuitas de percussão afro-brasileira e dança dos orixás. Não se trata apenas de técnica, mas de uma vivência profunda com ritmos como o afoxé e o maracatu, conectando os participantes aos arquétipos de divindades como o próprio Ogum, Iemanjá e Xangô.
As atividades são abertas a todos, independentemente de experiência prévia, e oferecem certificação para quem mantiver a frequência. Mais do que aprender a tocar um instrumento ou executar um passo, os alunos são convidados a entender a história por trás de cada movimento. Para quem busca integração total, os concluintes das oficinas poderão compor o Balé de Ogum durante o cortejo final, integrando a estética religiosa à performance artística.
Por que o debate sobre racismo religioso importa agora
Em um cenário onde a intolerância ainda faz vítimas silenciosas, a programação reserva o dia 23 de abril para uma discussão crítica e necessária. A roda de diálogo "Racismo Religioso: Reconhecer, Nomear, Denunciar" reunirá lideranças, acadêmicos e juristas para municiar a comunidade com ferramentas de proteção jurídica e estratégias de enfrentamento.
E é aqui que está o ponto central: a ocupação do espaço público é a ferramenta mais eficaz contra o apagamento cultural. O encontro não apenas discute o problema, mas oferece acolhimento através da tradicional feijoada de Ogum, unindo o debate intelectual ao compartilhamento sagrado do alimento. É o momento de fortalecer redes de apoio e garantir que o direito ao culto seja exercido com dignidade.
O que esperar do grande cortejo final
O ápice da celebração ocorre no dia 26 de abril, quando o cortejo partirá da Praça do Casarão rumo à sede do terreiro. Este é o momento em que a fé ganha as ruas com o acompanhamento do Maracatu Encanto do Pina e do Afoxé Povo de Ogunté. O som dos tambores anuncia a passagem de Ogum, o orixá dos caminhos, da tecnologia e da coragem, simbolizando a própria jornada de resistência dos povos tradicionais.
A celebração encerra-se com o "Samba para Ogum", contando com a voz de Karynna Spinelli e outras artistas convidadas. É uma festa que celebra a vida e a continuidade, reafirmando que, apesar dos desafios históricos, a cultura negra em Paulista permanece vibrante, aberta ao diálogo e pronta para pavimentar novos caminhos de respeito e convivência harmônica entre todas as crenças.