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Perda de vegetação nativa deixa o Brasil mais exposto e vulnerável aos extremos do El Niño

Em 41 anos, a vegetação nativa do Brasil encolheu para 65% do território, deixando o país desprotegido contra os efeitos devastadores do El Niño.

12 ago 2026 - 08h44 Joice Gomes   atualizado às 08h46
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Perda de vegetação nativa deixa o Brasil mais exposto e vulnerável aos extremos do El Niño Perda de cobertura florestal reduz a umidade do solo e intensifica os efeitos de secas extremas causadas pelo El Niño no Brasil. (Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O avanço silencioso do desmatamento alterou profundamente a capacidade do Brasil de resistir às forças da natureza. Ao longo de 41 anos, o país viu sua vegetação nativa encolher de 79% para apenas 65% do território nacional, uma perda que hoje cobra um preço alto: a exposição severa aos impactos extremos do El Niño.

De acordo com dados inéditos da Coleção 11 do MapBiomas, as áreas onde a floresta foi mantida em pé funcionaram como verdadeiros escudos climáticos contra o aquecimento do Oceano Pacífico. Por outro lado, as regiões convertidas para pastagens e lavouras amargaram secas severas e perdas drásticas de chuva.

Na prática, isso muda mais do que parece. A perda dessa barreira verde desregulou o regime de chuvas, transformando fenômenos climáticos temporários em desastres prolongados para a economia e para a biodiversidade brasileira.

O que está por trás do enfraquecimento da nossa defesa natural

O cruzamento de dados de satélite com a plataforma MapBiomas Atmosfera revelou que os anos de El Niño intenso, como o recente ciclo de 2023/24, foram implacáveis com as áreas modificadas pelo homem. A Amazônia, por exemplo, registrou um déficit de 178 milímetros de chuva em suas regiões de agropecuária no último evento.

Mas o impacto vai além. Enquanto a floresta densa consegue reter umidade e resfriar o ambiente local, o solo desprovido de vegetação nativa perde água rapidamente. Essa dinâmica perversa intensificou a seca histórica de 2024 no Pantanal, tornando-o o ano mais seco já registrado para o bioma.

O cenário não é diferente no Cerrado e no norte da Mata Atlântica, onde a estiagem se tornou progressivamente mais severa a cada ciclo do fenômeno. A exceção coube ao Pampa e ao sul do país, que sofreram com o extremo oposto: tempestades devastadoras que castigaram as lavouras gaúchas.

Como isso afeta o mapa de uso da terra no país

Entre 1985 e 2025, o Brasil perdeu impressionantes 65 milhões de hectares de florestas e 46 milhões de hectares de formações savânicas. Proporcionalmente, as savanas foram as mais castigadas, perdendo 30% de sua extensão original em apenas quatro décadas.

Paralelamente, o espaço ocupado pelas atividades humanas quase duplicou, saltando de 18% para 32% do território nacional. A pastagem e a agricultura avançaram de forma avassaladora, sobretudo sobre a Amazônia e o Cerrado, que perderam juntos mais de 105 milhões de hectares de áreas naturais.

No nível estadual, o recuo é generalizado: 25 dos 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal, perderam cobertura original. A única exceção histórica é o Rio de Janeiro, que registrou uma sutil recuperação de 1% em seu território florestal, enquanto Rondônia e Maranhão lideraram as perdas.

O que pode acontecer a partir disso

O estudo traz ainda um mapeamento inédito das marismas do Pampa, ecossistemas de transição salobra cruciais para conter o avanço das marés e proteger a costa. A identificação dessas áreas abre uma nova frente de preservação em tempos de elevação do nível do mar.

E é aqui que está o ponto central: manter a floresta em pé não é apenas uma bandeira conservacionista, mas uma estratégia de sobrevivência econômica. Sem a regulação térmica promovida pela vegetação nativa, o agronegócio e o abastecimento urbano enfrentarão crises hídricas cada vez mais frequentes.

O futuro do clima no Brasil depende diretamente de frear essa conversão de terras e iniciar um processo acelerivo de restauração ecológica. Se o país continuar a desmantelar seus escudos naturais, os próximos episódios de El Niño serão ainda mais destrutivos, cobrando um preço insustentável para o desenvolvimento nacional.

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