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Agressões contra mulheres

Agressões contra mulheres disparam 29% em dias de futebol e acendem alerta nacional

Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que agressões contra mulheres sobem 28,9% em dias de futebol. Jovens são as principais vítimas.

12 ago 2026 - 08h42 Joice Gomes   atualizado às 08h46
Agressões contra mulheres disparam 29% em dias de futebol e acendem alerta nacional Pesquisa revela correlação direta entre partidas de futebol e picos de violência doméstica contra mulheres no Brasil. (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O apito final que encerra uma partida de futebol nos estádios brasileiros tem marcado, de forma alarmante, o início de um período de extremo perigo dentro de milhares de lares. Em dias de jogos, os registros de agressões físicas configuradas como lesão corporal dolosa, decorrentes de violência doméstica contra mulheres disparam 28,9%. Esse indicador revela que o esporte mais popular do país tem funcionado como um gatilho temporal de risco real para milhares de brasileiras.

Os dados, revelados pela segunda edição da pesquisa Futebol e violência contra a mulher, elaborada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), expõem uma realidade invisível que ocorre longe dos gramados. Lançado em São Paulo, o estudo comprova estatisticamente o que muitas vítimas e profissionais de segurança já sentiam no cotidiano: o calendário esportivo dita o ritmo do medo em ambientes domésticos.

Na prática, isso muda completamente a forma como as autoridades precisam encarar as datas das partidas. Não se trata de um problema isolado de brigas entre torcidas organizadas do lado de fora das arenas, mas sim de uma onda silenciosa de violência intrafamiliar impulsionada por tensões emocionais, consumo excessivo de álcool e comportamentos agressivos.

O que muda na prática para a segurança das mulheres

O levantamento detalha que, além das lesões corporais, os casos de ameaças verbais e psicológicas registram uma alta expressiva de 27,4% quando os times entram em campo. A vulnerabilidade é ainda mais acentuada entre mulheres jovens, na faixa de 15 a 29 anos. Para esse grupo específico, o impacto é devastador: tanto as ameaças quanto as agressões físicas sofrem uma escalada brutal de 44,4% em dias de partidas de grande relevância.

Para chegar a esses resultados, a pesquisa cruzou boletins de ocorrência com o calendário de jogos da Série A do Campeonato Brasileiro, Copa Libertadores e Copa Sul-Americana entre 2023 e 2025. A análise concentrou-se em cinco grandes capitais do país: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre, demonstrando que o fenômeno é sistêmico e independe da região geográfica.

Por que os dias de jogos se tornaram marcadores de risco

Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do FBSP, destaca que esse diagnóstico exige uma mudança urgente de postura por parte das forças de segurança pública. Os dias de jogo são, hoje, fatores de risco comprovados para a violência doméstica contra mulheres. Segundo a especialista, esses picos de violência devem nortear o policiamento ostensivo, com o reforço planejado de Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e das patrulhas dedicadas a fiscalizar Medidas Protetivas de Urgência.

Mas o impacto vai muito além das delegacias de polícia. Existe uma responsabilidade social direta que recai sobre os próprios clubes de futebol, que deixam de ser apenas promotores do espetáculo e passam a ser convocados como agentes de transformação de comportamentos históricos de agressividade dentro de suas comunidades de torcedores.

A comparação com levantamentos anteriores acende um sinal de alerta ainda mais forte. Na primeira edição do estudo, que analisou dados de 2015 a 2018, as ameaças subiam 23,7% e as lesões corporais cresciam 20,8% em dias de jogos. O salto atual de mais de 8 pontos percentuais nas agressões físicas escancara que o problema não apenas persiste, mas está se tornando significativamente mais severo e letal a cada ano.

O que pode acontecer a partir de agora

Com os dados consolidados, a expectativa de especialistas é que o futebol brasileiro comece a desenhar uma nova tática fora de campo. Campanhas educativas consistentes e a integração direta de dados de segurança pública com o calendário das federações esportivas são os primeiros passos necessários para reverter essa curva ascendente de violência.

Enquanto os holofotes estiverem voltados exclusivamente para o espetáculo esportivo, milhares de mulheres continuarão vivendo sob a sombra do medo a cada apito inicial. Enfrentar essa realidade exige coragem coletiva para admitir que a paixão nacional não pode mais servir de escudo para o silêncio e para a violência doméstica.

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