Trabalhador agrícola em plantação; custo de alimentos nutritivos desafia políticas de combate à fome no mundo.
(Imagem: FAO/Albert Gonzalez Farran)
Pelo terceiro ano consecutivo, o número de pessoas que enfrentam a fome no mundo registrou queda, recuando para 645 milhões em 2025. O recuo representa um alívio importante, mas escancara um abismo de desigualdade regional que ainda penaliza as populações mais vulneráveis do planeta.
A redução de quase 14 milhões de pessoas nessa situação extrema consta no relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI). O documento foi elaborado por cinco agências globais, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Unicef.
Na prática, a taxa de fome global caiu para 7,8% da população mundial. Contudo, governantes e especialistas alertam que a velocidade dessa melhora ainda é insuficiente para cumprir as metas internacionais de erradicação da miséria até o final desta década.
O que está por trás do recuo da fome global
O avanço mais expressivo foi registrado no combate à insegurança alimentar moderada ou severa. Essa condição afeta quem consome alimentos em quantidade insuficiente ou sem a qualidade nutricional necessária para uma vida saudável.
Até 2025, estimava-se que 25,8% da população mundial, cerca de 2,1 bilhões de pessoas vivia nessa vulnerabilidade. Esse índice representa uma melhora consistente frente aos anos anteriores, retirando milhões de pessoas da faixa de risco imediato.
Mas o impacto real vai além dos números gerais. Por trás da média global, a recuperação econômica pós-pandemia se comporta de formas completamente distintas dependendo de onde o cidadão vive.
Como a desigualdade regional divide o planeta
Enquanto a Ásia e a América Latina registraram melhoras graduais e consistentes, a África enfrenta uma crise silenciosa e severa. O continente africano é, atualmente, a região com a maior proporção de pessoas famintas no planeta.
Aproximadamente 20% da população africana passou fome em 2025, o que equivale a 309 milhões de pessoas. Em termos de insegurança alimentar moderada ou severa, o cenário é ainda mais alarmante, atingindo mais de metade dos habitantes do continente.
A desigualdade também tem gênero e endereço. Mulheres em idade fértil e moradores de áreas rurais continuam sofrendo desproporcionalmente com a falta de acesso a alimentos minimamente diversos e saudáveis.
O custo invisível de comer de forma saudável
E é aqui que está o ponto central do desafio global. Embora a fome absoluta tenha recuado, o custo médio para se manter uma dieta nutritiva disparou, alcançando a média global de US$ 4,28 diários por pessoa.
A América Latina e o Caribe registram o custo mais alto do mundo para se comer de forma saudável, atingindo US$ 4,91 por dia. Como consequência direta, mais de 2,6 bilhões de pessoas no mundo ainda não conseguem pagar por uma alimentação de qualidade.
Para reverter essa realidade, governos e organismos internacionais defendem que é preciso ir além da distribuição de alimentos. A solução exige reformas estruturais profundas, investimentos em irrigação, infraestrutura logística e subsídios agrícolas focados em pequenos produtores.
O que pode acontecer a partir de agora
O futuro imediato do combate à fome global permanece sob forte ameaça de fatores externos. Eventos climáticos extremos decorrentes do El Niño e a escalada de conflitos geopolíticos podem reverter rapidamente os ganhos recentes.
Além disso, o corte de orçamentos de ajuda humanitária por parte de países desenvolvidos surge como um obstáculo crítico para manter o ritmo de assistência nas regiões mais vulneráveis.
A segurança alimentar do amanhã dependerá da resiliência dos sistemas agroalimentares locais. Fortalecer os pequenos agricultores e blindar a cadeia de abastecimento contra crises climáticas é o único caminho viável para garantir que o prato de comida deixe de ser um privilégio.