Casa de Mãe Bernadete, símbolo da resistência e da constante busca por justiça no Quilombo Pitanga dos Palmares.
(Imagem: Reprodução/Arte sobre foto de Walisson Braga/Conaq)
Três anos após o assassinato brutal de Mãe Bernadete em sua própria casa, na Bahia, a dor da perda violenta ainda pulsa nas comunidades quilombolas de todo o país. O caso, que escancarou a vulnerabilidade de defensores de direitos humanos, transformou-se em um marco de resistência e de cobrança por segurança jurídica e física nos territórios tradicionais.
A execução com 25 tiros dentro do Quilombo Pitanga dos Palmares chocou o Brasil e o mundo. Agora, familiares e lideranças se mobilizam para que o esquecimento não enterre também as investigações e os processos judiciais pendentes.
Na prática, a luta por justiça caminha lado a lado com a preservação de uma história de liderança espiritual e política que as balas não conseguiram apagar.
O que está por trás da busca por justiça nos tribunais
Wellington Pacífico, neto da ialorixá e testemunha ocular da tragédia quando ainda era criança, carrega nos ombros um duplo luto. Além da avó, ele perdeu o pai, Binho do Quilombo, também executado em circunstâncias violentas no ano de 2017.
Para romper o ciclo de silenciamento e impunidade, Wellington ingressou na faculdade de Direito na Bahia. Sua meta é clara: usar as ferramentas da lei para proteger sua comunidade e garantir que crimes como os que destruíram sua família não fiquem sem punição.
Atualmente, dois acusados pelo assassinato de Bernadete já foram condenados pela Justiça. Arielson da Conceição dos Santos recebeu pena de 40 anos, enquanto Marílio dos Santos foi condenado a mais de 29 anos de prisão. Contudo, outros três suspeitos ainda aguardam o banco dos réus, com expectativa de julgamento para o segundo semestre deste ano.
Como a violência afeta as mulheres quilombolas
A brutalidade contra Mãe Bernadete não representa um fato isolado, mas reflete uma realidade alarmante vivida por lideranças femininas no campo. O racismo estrutural e o sexismo criam um cenário de risco extremo para quem defende a terra.
Dados levantados pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) mostram que pelo menos 22 mulheres quilombolas foram assassinadas entre 2016 e 2024. O cenário de ameaças é ainda mais amplo, com dezenas de casos registrados nos últimos anos.
O grande gargalo da violência reside na demora histórica de regularização fundiária. Atualmente, apenas uma parcela mínima da população quilombola no Brasil vive em territórios oficialmente demarcados, o que deixa as comunidades expostas a invasões e conflitos.
O que pode acontecer a partir de agora
Diante da inércia do poder público, a Conaq estruturou um plano emergencial de proteção voltado especificamente para as mulheres quilombolas. A intenção é pressionar o Estado a adotar medidas urgentes de salvaguarda física e assistência social.
Paralelamente, a família de Bernadete trabalha para manter a cultura local viva por meio de festivais de arte, cursos de artesanato e cozinhas solidárias. Essas iniciativas buscam restabelecer o tecido social da comunidade, gravemente abalado pela tragédia.
Manter os holofotes sobre Pitanga dos Palmares é a única garantia de que as lideranças sobreviventes continuem vivas. A história de Mãe Bernadete, transformada em semente por seu neto e sua comunidade, mostra que a justiça real só existirá quando os quilombos forem de fato livres e seguros.