Reitoria da UFRJ, que anulou título de doutor honoris causa de diplomata norte americano envolvido na articulação do golpe de 1964.
(Imagem: Reprodução/Agência Brasil)
Em um movimento histórico de reparação e revisão de sua própria trajetória durante os anos de chumbo, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) cassou por unanimidade o título de Doutor Honoris Causa concedido ao ex-embaixador norte-americano Lincoln Gordon.
A decisão do Conselho Universitário encerra um incômodo vínculo honorífico datado de 1968, auge do regime autoritário que silenciou o país por duas décadas.
Ao anular a homenagem, a maior universidade federal do país não apenas reescreve uma página de sua memória acadêmica, mas envia um recado contundente sobre a indissociabilidade entre ciência, democracia e soberania nacional.
O que está por trás da decisão histórica
Lincoln Gordon, que comandou a embaixada dos Estados Unidos no Brasil entre 1961 e 1966, foi peça-chave na articulação internacional que culminou na deposição do presidente constitucional João Goulart, em 1º de abril de 1964.
O diplomata atuou como elo direto entre os conspiradores civis e militares brasileiros e a Casa Branca, então sob a liderança do presidente Lyndon B. Johnson.
Documentos oficiais revelados anos após o golpe comprovaram que Gordon não apenas endossou o levante armado, mas também coordenou esforços logísticos cruciais para garantir o sucesso dos revoltosos caso houvesse resistência.
A Operação Brother Sam e a intervenção estrangeira
O ponto alto dessa colaboração estrangeira atende pelo codinome de 'Operação Brother Sam', uma gigantesca mobilização militar que ordenou o envio de uma força-tarefa naval dos Estados Unidos rumo à costa brasileira.
Os registros do governo norte-americano detalham que o plano incluía o envio de porta-aviões, destróieres e navios petroleiros prontos para abastecer e apoiar as tropas golpistas.
Como a deposição de Jango ocorreu de maneira rápida e sem uma guerra civil imediata, a frota de guerra não precisou disparar um único tiro em águas territoriais brasileiras, mas a ameaça de intervenção direta permaneceu registrada nos arquivos da história.
O impacto prático da reparação histórica
Na prática, medidas como esta vão muito além do mero simbolismo político e tocam no cerne da justiça de transição que o Brasil tenta consolidar de forma tardia.
Outras instituições de ensino de prestígio, como a Universidade de São Paulo (USP), também têm promovido revisões semelhantes nos últimos anos, concedendo títulos póstumos a vítimas da ditadura e cassando honrarias de colaboradores do regime.
Esse movimento de autocrítica das universidades brasileiras sinaliza que as concessões feitas sob coerção ou conveniência durante regimes de exceção não são eternas e podem, sim, ser julgadas pelo tribunal do tempo.
E é aqui que está o ponto central: ao resgatar a verdade sobre a atuação de Gordon, a academia reafirma seu compromisso ético com os direitos humanos e com as futuras gerações de estudantes.
Restaurar a integridade da história do país é um processo contínuo que exige coragem das instituições de ensino para confrontar seus próprios silêncios do passado, pavimentando um caminho onde a liberdade democrática jamais seja negociável.