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Ter, 06 de Outubro
Inteligência artificial

O desafio das faculdades: formar jornalistas que pensem além dos algoritmos

Diante do avanço da IA e das Big Techs, o ensino de jornalismo foca na ética e no olhar humano como diferenciais essenciais contra a desinformação acelerada.

23 abr 2026 - 08h49 Joice Gomes   atualizado às 08h51
O desafio das faculdades: formar jornalistas que pensem além dos algoritmos Pesquisadores discutem o papel humano no jornalismo durante o 25º ENEJor na Universidade de Brasília. (Imagem: gerado por IA)

Em um cenário onde a inteligência artificial consegue redigir textos em milissegundos e a desinformação viaja em escala industrial, o valor do diploma de jornalismo está sendo posto à prova de forma inédita. Não se trata mais apenas de aprender técnicas de redação, mas de entender como a sensibilidade humana pode sobreviver em um ecossistema dominado por códigos e Big Techs. Este é o ponto central das discussões que mobilizam acadêmicos e profissionais no 25º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), em Brasília.

Para a professora Marluce Zacariotti, presidente da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej), a resposta para o avanço tecnológico não está em máquinas mais potentes, mas no reforço dos pilares clássicos da profissão. Em sua visão, a conquista da confiança social em tempos de incerteza depende de uma formação que priorize a ética e o olhar crítico acima de qualquer ferramenta automatizada.

O que muda na prática: o fim da era das disciplinas isoladas

Diferente do que muitos gestores educacionais podem imaginar, a solução para integrar a inteligência artificial ao currículo não passa pela criação de disciplinas isoladas. Na prática, isso muda mais do que parece: a proposta é que temas como IA e combate à desinformação sejam trabalhados de forma transversal, permeando todas as etapas do aprendizado. A ideia é reafirmar o papel humano do fazer jornalístico, garantindo que o estudante saiba usar a tecnologia como aliada, sem se tornar dependente dela.

Mas o impacto vai além da sala de aula. A pesquisadora defende que a universidade precisa derrubar seus muros por meio da extensão. Ao estabelecer parcerias com a comunidade e o mercado, o ensino de jornalismo cumpre sua natureza social, ajudando a sociedade a decifrar um universo cada vez mais complexo e digitalizado. Fechar as portas para essa realidade, segundo Marluce, seria o mesmo que se distanciar dos próprios alunos, que já nasceram imersos nessa cultura digital.

A ditadura dos algoritmos e as novas forças ocultas

E é aqui que está o ponto central do debate: a mudança radical no ecossistema de mídia. Se antigamente falávamos em grandes impérios de comunicação comandados por famílias tradicionais, hoje lidamos com forças invisíveis e algoritmos de Big Techs. Nesse novo sistema, onde cada indivíduo é um gerador de dados, a distinção entre o jornalista profissional e o influenciador digital torna-se crucial para a saúde da democracia.

A literacia midiática surge, então, como uma ferramenta de sobrevivência cidadã. É preciso explicar ao público o que está por trás de uma informação checada, com contexto e múltiplas abordagens, diferenciando-a do conteúdo puramente opinativo ou patrocinado. Esse diferencial é o que garante que o jornalismo continue sendo um serviço público essencial, e não apenas mais um dado perdido na nuvem.

O que pode acontecer a partir disso

Outro ponto de atenção destacado no encontro é a precarização do trabalho e o isolamento nas redações virtuais. O jornalismo, por essência, é uma atividade coletiva e de rua. A tendência de manter o profissional trancado em frente a uma tela, apenas processando dados, afeta o perfil da notícia e a conexão com a realidade. O resgate da presença física e da troca de experiências entre pares é visto como um antídoto necessário contra a mecanização da notícia.

O futuro da profissão, portanto, não será decidido pela capacidade de processamento das IAs, mas pela coragem das faculdades em formar profissionais que saibam questionar. Ao investir em uma consciência cidadã e no fortalecimento do método jornalístico, a academia prepara o terreno para que o jornalismo não apenas sobreviva, mas se torne o filtro indispensável em um mundo soterrado por excessos de informação e ausência de sentido.

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