Movimentação de containers em porto brasileiro ilustra as mudanças no fluxo comercial entre Brasil, Estados Unidos e China.
(Imagem: gerado por IA)
As exportações brasileiras para os Estados Unidos registraram um recuo de 14% em maio, consolidando uma tendência de queda que acompanha a imposição de novas barreiras tarifárias pelo governo de Donald Trump. O dado, revelado nesta quarta-feira (3) pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), acende um alerta sobre o fôlego da nossa indústria no mercado norte-americano.
Desde agosto do ano passado, o fluxo comercial entre as duas nações vem perdendo tração. Na prática, isso muda mais do que apenas os números frios da balança: reflete um ambiente de negócios mais caro e incerto para o exportador brasileiro, que agora precisa lidar com custos adicionais para entrar em um de seus portos mais tradicionais.
Apesar do cenário de retração, o governo brasileiro prefere cautela antes de falar em um divórcio comercial definitivo. Segundo Herlon Brandão, diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do Mdic, ainda é cedo para decretar uma mudança estrutural na relação entre Brasília e Washington.
O que está por trás da retração e como isso afeta a economia
O diretor explica que os fluxos de comércio exterior possuem uma inércia natural. Bens produzidos sob encomenda sofrem impactos imediatos quando uma nova tarifa é anunciada, mas itens essenciais, como alimentos e matérias-primas, tendem a resistir por mais tempo devido à demanda constante.
A pauta brasileira para os Estados Unidos é pesada em petróleo, celulose, carnes e café. Embora o custo de exportar tenha subido, a necessidade americana por esses insumos ainda serve como um colchão de segurança. Mas o impacto vai além dos impostos: há um rearranjo nas rotas globais de abastecimento.
O ritmo da queda, porém, dá sinais de estabilização. Se em outubro o tombo foi de 35%, o recuo de 14% em maio sugere que o mercado está encontrando um novo ponto de equilíbrio, mesmo que em um patamar inferior ao de 2025.
A ascensão da China e o papel estratégico do petróleo
Enquanto o mercado americano esfria, a China aproveita o espaço para ampliar sua dominância. Em maio, as vendas para o gigante asiático saltaram 9,5%, totalizando US$ 10,5 bilhões. A participação chinesa no bolo das exportações brasileiras já beira os 33%, reforçando a dependência e a oportunidade do Brasil em relação ao oriente.
Outro fator determinante para o saldo positivo do país vem do setor de energia. O conflito no Oriente Médio provocou choques na oferta global, elevando os preços e impulsionando as exportações brasileiras de combustíveis derivados de petróleo, que cresceram quase 50% em valor no mês de maio.
Mesmo com impostos internos sobre a exportação de óleo bruto, a competitividade brasileira permanece inabalada. A entrada em operação de novas plataformas de produção garante que o Brasil continue sendo um player relevante no cenário energético, compensando as dificuldades enfrentadas em outros setores industriais.
O que pode acontecer a partir de agora
O saldo comercial acumulado de US$ 32,6 bilhões nos primeiros cinco meses de 2026 mostra um Brasil resiliente, mas em fase de transição. O país está colhendo os frutos da alta das commodities e da forte demanda chinesa, ao mesmo tempo em que precisa recalcular sua estratégia para não perder espaço no mercado americano.
A curto prazo, a expectativa é de que o superávit continue robusto, ancorado no agronegócio e no petróleo. No entanto, a sustentabilidade desse crescimento dependerá de como o Brasil navegará entre as tensões geopolíticas e as políticas protecionistas que parecem ter vindo para ficar nas maiores economias do mundo.