A radialista Mara Régia destaca o papel do rádio como instrumento de cidadania no Brasil profundo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
(Imagem: gerado por IA)
Enquanto o mundo se perde em telas e algoritmos, na imensidão da Amazônia brasileira, cerca de 80% da população ainda começa e termina o dia com o ouvido encostado em um rádio. Esse dado, que reforça a vitalidade de um dos meios de comunicação mais resilientes da história, foi o ponto de partida do 7º Simpósio Nacional do Rádio, iniciado nesta quarta-feira (20), no Rio de Janeiro.
O encontro, sediado no histórico Palácio Gustavo Capanema, reúne pesquisadores, profissionais da comunicação e representantes da radiodifusão pública sob um pretexto simbólico: os 90 anos da Rádio Nacional. O evento não é apenas uma celebração do passado, mas um laboratório de ideias sobre como a mídia sonora está se adaptando às rupturas tecnológicas e culturais do século XXI.
Promovido pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e pelo Grupo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Intercom, o simpósio deixa claro que a comunicação pública brasileira atua hoje como o eixo central de uma rede que conecta mais de 330 emissoras, garantindo que a informação chegue onde o sinal de internet muitas vezes falha.
O que está por trás da longevidade do rádio
Na prática, a relevância do rádio vai muito além do entretenimento. Para a radialista Mara Régia, voz icônica da Rádio Nacional da Amazônia, a emissora funciona como um serviço essencial de cidadania para populações ribeirinhas e indígenas. "O rádio chega onde, muitas vezes, o Estado não chega. Ele acolhe, orienta e cria vínculos afetivos que nenhuma plataforma digital conseguiu replicar com a mesma profundidade", destacou Mara durante o debate.
A conexão emocional citada pela radialista é o que sustenta o rádio em um cenário de pulverização de conteúdos. A capacidade de ser "companhia" transforma a ferramenta em um instrumento de pertencimento, especialmente em áreas isoladas onde as ondas curtas ainda são o único cordão umbilical com o restante do país.
Como a inovação molda o futuro da mídia sonora
Mas se a memória preserva a essência, a inovação é o que garante o futuro. O jornalista Heródoto Barbeiro trouxe para o simpósio uma reflexão sobre a transição do rádio AM para o ecossistema dos podcasts e streaming. Para ele, o "vício" do brasileiro em ouvir rádio — seja no trânsito das metrópoles ou no campo — é o que mantém o mercado aquecido.
"O povo ouve rádio porque ele exige resposta imediata e possui uma credibilidade histórica", afirmou Heródoto. Ele ressaltou que, embora as plataformas mudem, a essência da comunicação direta e ágil permanece. A transformação digital, portanto, não deve ser vista como uma ameaça, mas como uma expansão do alcance de vozes que antes estavam limitadas pela potência das antenas.
O que muda na prática com a nova representatividade
Outro ponto focal do evento foi a quebra de barreiras dentro das redações. A participação de Luciana Zogaib, a primeira mulher a narrar futebol no rádio brasileiro, simboliza uma mudança estrutural na profissão. Sua trajetória na Rádio Nacional foi apresentada como um marco para novas gerações de mulheres que buscam ocupar espaços historicamente masculinos na radiodifusão esportiva.
O simpósio termina reforçando uma certeza: o rádio não está apenas sobrevivendo; ele está se redescobrindo. Entre a tradição das radionovelas que formaram a identidade cultural do país e a modernidade dos videocasts, a mídia sonora brasileira prova que sua voz continua sendo o caminho mais curto entre a informação e o cidadão, independentemente da distância geográfica ou tecnológica.