Brasil registra a menor mortalidade infantil em 34 anos.
(Imagem: Marcello Casal/Agência Brasil)
O Brasil atingiu em 2024 o menor nível de mortalidade infantil das últimas três décadas, consolidando um marco relevante na saúde pública e na proteção à primeira infância . O resultado integra o relatório Níveis e Tendências da Mortalidade Infantil, divulgado pelas Nações Unidas, e aponta que o país chegou às menores taxas de mortes neonatais e de crianças menores de cinco anos em 34 anos.
Os números ajudam a medir a dimensão dessa mudança. Em 1990, 25 recém-nascidos morriam a cada mil nascidos vivos antes de completar 28 dias de vida; em 2024, a taxa caiu para sete por mil . Entre crianças de até cinco anos, o índice recuou de 63 para 14,2 óbitos por mil nascidos vivos no mesmo período, sinalizando um avanço consistente na prevenção de mortes evitáveis.
O desempenho brasileiro reflete uma combinação de políticas públicas construídas ao longo de anos, com foco em atenção básica, expansão da cobertura de saúde e acompanhamento materno-infantil . O conjunto inclui ações como o Programa Saúde da Família, o trabalho de agentes comunitários, a Política Nacional de Atenção Básica e a ampliação de serviços do Sistema Único de Saúde, que ajudaram a melhorar o acesso ao pré-natal, ao parto assistido e ao cuidado nos primeiros anos de vida.
Avanço acumulado ao longo de décadas
A queda da mortalidade infantil no país não ocorreu de forma repentina. Ela foi sendo construída com a ampliação do cuidado territorial, o fortalecimento das campanhas de vacinação, o monitoramento nutricional e a presença de equipes de saúde mais próximas das famílias . Esse modelo permitiu identificar riscos precocemente e responder com mais rapidez a situações que antes resultavam em óbitos de bebês e crianças pequenas.
O relatório destaca que intervenções consideradas simples e de baixo custo seguem entre as mais eficazes para preservar vidas na infância . Estão entre elas a imunização, o tratamento da desnutrição e o acompanhamento adequado durante a gestação, o parto e o período logo após o nascimento, medidas que têm efeito direto na redução de complicações graves.
Na prática, os dados mostram que a redução da mortalidade infantil depende de uma rede contínua de proteção. Quando vacinação, assistência básica, orientação às famílias e atenção perinatal funcionam de maneira articulada, a chance de sobrevivência aumenta e o impacto aparece nos indicadores nacionais.
Desaceleração acende novo alerta
Apesar do resultado histórico, o relatório indica que a velocidade de queda dos índices perdeu força nos últimos anos . Entre 2000 e 2009, a mortalidade neonatal caiu, em média, 4,9% ao ano; entre 2010 e 2024, a redução anual foi de 3,16%.
A desaceleração sugere que os avanços mais recentes exigem políticas ainda mais precisas para alcançar grupos vulneráveis e territórios com maior dificuldade de acesso a serviços essenciais . Também reforça a necessidade de manter investimentos em prevenção, ampliar a cobertura de cuidados e evitar retrocessos em áreas como vacinação, nutrição e saneamento.
Esse cenário acompanha uma tendência mais ampla observada em nível mundial. As Nações Unidas apontam que as mortes de crianças menores de cinco anos caíram mais da metade desde 2000, mas o ritmo de redução perdeu intensidade depois de 2015, com desaceleração superior a 60% . O dado indica que o desafio atual já não é apenas reduzir os índices, mas impedir que a melhora entre em estagnação.
Indicador vai além da saúde
A mortalidade infantil é tratada internacionalmente como um dos sinais mais sensíveis das condições de vida de uma população . Quando esse índice recua, ele costuma refletir melhora no acesso a serviços de saúde, alimentação adequada, acompanhamento da gestação, saneamento e proteção social.
Por isso, o resultado brasileiro tem peso que vai além do campo sanitário. A sobrevivência na primeira infância está ligada à redução de desigualdades, ao aumento das oportunidades de desenvolvimento e à interrupção de ciclos persistentes de pobreza.
O próprio relatório ressalta que investir em mortalidade infantil e sobrevivência na infância gera retorno amplo para a sociedade . Segundo o documento, cada dólar aplicado nessa área pode produzir até 20 dólares em benefícios sociais e econômicos, com impacto em produtividade, fortalecimento das economias e redução de custos futuros.
Desafio segue na infância e adolescência
O levantamento também mostra que a proteção à vida de crianças e jovens não se encerra após os primeiros anos de vida . Em 2024, cerca de 2,1 milhões de crianças, adolescentes e jovens de 5 a 24 anos morreram no mundo, o que amplia o debate sobre riscos que passam a predominar em outras etapas da vida.
No Brasil, a violência aparece como principal causa de morte entre meninos de 15 a 19 anos, respondendo por 49% dos óbitos em 2024 . Na mesma faixa etária, doenças não transmissíveis representaram 18% das mortes e os acidentes de trânsito, 14% . Entre meninas de 15 a 19 anos, as doenças não transmissíveis lideraram, com 37%, seguidas por doenças transmissíveis, com 17%, violência, com 12%, e suicídio, com 10%.
Esses dados mostram que o país avançou fortemente na sobrevivência de bebês e crianças pequenas, mas ainda convive com problemas estruturais em fases posteriores da vida . O combate à violência, a ampliação do cuidado em saúde mental, a prevenção de doenças crônicas e a proteção de adolescentes passam a ocupar um lugar central nesse debate.