A exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi traz ao Rio de Janeiro obras inéditas do artista gaúcho transmasculino, marcando pioneirismo na Sala do Artista Popular com foco em visibilidade e resistência cultural.
(Imagem: Gabriela Puchineli/Divulgação)
A Fabulações transviadas de Caru Brandi estreou no Rio de Janeiro como um marco na cena cultural carioca. Aberta ao público em 5 de março de 2026, a exposição individual ocupa a Sala do Artista Popular, espaço icônico do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Catete. Trata-se da primeira vez que um artista transmasculino não-binário gaúcho apresenta sua produção nesse tradicional programa de arte popular.
Originário de Porto Alegre, Caru Brandi vê na mostra uma porta de entrada para maior representatividade trans em instituições culturais. As obras mesclam peças do acervo pessoal com criações exclusivas para o local, explorando em cerâmicas e pinturas a transição de gênero sob uma ótica lúdica e provocativa. Com entrada franca e todas as peças à venda, a exposição convida o público a refletir sobre identidades fluidas.
Do realismo à ficção na jornada artística
A trajetória de Caru Brandi ganhou contornos profissionais em 2018, ano que coincidiu com sua transição pessoal. Partindo de tatuagens e traços realistas, o artista abraçou uma poética mais imaginativa, povoada por seres híbridos inspirados em experiências transmasculinas e não-binárias. Na pandemia, ainda estudante de Direito - formado em 2021 -, a pintura se tornou refúgio e ponte para a comunidade.
Definida em 2024 como vocação principal, a arte visual levou Brandi à graduação em Artes Visuais na UFRGS. Hoje arte-educador na Casa de Cultura Mário Quintana, ele comemora um ateliê conquistado via projeto Além-mundos: memórias do (in)imaginário, na Casa Baka. Essa evolução sustenta a Fabulações transviadas de Caru Brandi, expondo narrativas coletivas antes silenciadas.
- Início em tatuagens realistas evoluiu para cerâmicas figurativas e pinturas oníricas.
- Transição de gênero em 2018 inspirou temas de hibridismo e dissidência.
- Formação acadêmica e projetos colaborativos fortalecem produção desde 2024.
Figuras híbridas e ruptura conceitual
Figuras ambíguas dominam a exposição Fabulações transviadas, com poses enigmáticas em paletas vivas que fundem humano, animal e vegetal. Cerâmicas e telas celebram a transviadice, desafiando binários de gênero e natureza via ludismo crítico. Patrick Monteiro do Nascimento Silva, antropólogo e autor do catálogo, elogia como as obras transcendem fronteiras, capturando essências transcomplexas.
No Museu de Folclore Edison Carneiro, a mostra questiona o cerne da cultura popular, segundo Rafael Barros, diretor do Centro Nacional de Folclore. Ele posiciona o universo trans como folclore vivo atual, expandindo noções tradicionais de popular. Aberta até 22 de abril, recebe visitantes de terça a sexta (10h-18h) e fins de semana (11h-17h).
Oficinas e ballroom na programação
A abertura uniu criação e celebração: a oficina Imaginários do barro, liderada por Brandi, ofereceu escultura cerâmica a 15 inscritos das 14h30 às 16h30. Pela noite, performance ballroom de Maru e Kayodê Andrade invocou herança LGBTQIA+ negra e latina, nascida nos EUA nos anos 1970 e florescida no Brasil via Brasília desde 2015.
Maru, performer transmasculino não-binário, atleta e modelo, dividiu cena com Kayodê Andrade, 25 anos, idealizador do Coletivo TransMaromba. Para o artista, essa junção sublinha interdependências trans, sensibilizando visitantes a pluralidades vivas. Assim, a Fabulações transviadas de Caru Brandi pulsa como evento comunitário e educativo.
- Oficina prática introduziu técnicas cerâmicas no dia da inauguração.
- Ballroom destacou vogue, pista e laços de pertencimento trans.
- TransMaromba prioriza bem-estar integral de corpos transmasculinos.
Ampliação do patrimônio e horizontes futuros
Lançada em 1983 pelo Iphan, a Sala do Artista Popular (SAP) difunde ofícios tradicionais há 43 anos, com catálogos que documentam saberes. A presença trans aqui ecoa o Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+ do Iphan, via Portaria 260/2025. Barros enxerga expansão do popular para além do convencional.
Brandi almeja institucionalizar tais oportunidades, democratizando galerias para trans. A exposição esclarece transmasculinidade - masculinidade não-binária - e não-binaridade, além do par homem-mulher. Impulsionando patrimônio imaterial diverso, pavimenta replicações em outros centros culturais.
O Centro Nacional, com 17 mil itens arquivados, sustenta salvaguarda viva. A Fabulações transviadas de Caru Brandi legitima expressões trans como herança dinâmica, estimulando vendas e debates. À frente, consolida-se avanço para inclusão artística plena.