O escritor Milton Hatoum durante mesa de debate na Flipelô, refletindo sobre literatura e tempo.
(Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil)
O silêncio imposto por regimes autoritários encontra na literatura um de seus adversários mais implacáveis. Ao subir ao palco da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, o escritor amazonense Milton Hatoum não apenas apresentou seu mais recente romance, Dança de Enganos, mas também lançou um manifesto silencioso sobre a importância de recordar para não repetir as tragédias do passado.
Recém-empossado na Academia Brasileira de Letras (ABL) como o primeiro representante da Amazônia, Hatoum atraiu uma multidão ao Museu Eugênio Teixeira Leal. Sua presença ali, mais do que um ato festivo, representou um ponto de resistência intelectual em um momento em que narrativas negacionistas tentam relativizar os anos de chumbo no Brasil.
Com o lançamento de Dança de Enganos, o autor encerra a aclamada trilogia O Lugar Mais Sombrio, que investiga o impacto profundo e cotidiano da ditadura militar na vida de jovens e suas famílias. Mas o impacto vai além do mero registro histórico; na prática, a obra funciona como um espelho para as fraturas sociais que ainda hoje insistem em não fechar.
O que muda na prática com o resgate das memórias familiares
Diferente de relatos puramente documentais, a trilogia de Hatoum foca nos bastidores afetivos da opressão. No novo livro, a personagem Lina assume a narrativa para expor as dores e os segredos de uma família dilacerada pelo autoritarismo. A memória, aqui, é tratada como matéria-prima dinâmica.
"A memória na literatura é fundamental, ela é uma espécie de musa tutelar dos escritores", pontuou o autor. No entanto, ele adverte que essa lembrança não deve ser vista como algo estático ou intocável. Para ele, o passado só ganha significado real quando tensiona as contradições do nosso presente.
E é aqui que está o ponto central de sua criação literária: a escrita como um acerto de contas histórico. Hatoum confessou ao público que a trilogia foi concebida também como um ato de "vingança" simbólica pelas vidas interrompidas e silenciadas de sua geração, que enfrentou a repressão estudantil nas décadas de 1970 e 1980.
Como o autoritarismo de hoje moldou o fim da trilogia
O processo de escrita de Hatoum foi profundamente impactado pelas recentes turbulências políticas do Brasil. Ao ver ressurgirem discursos que exaltam a ditadura, o escritor decidiu reescrever trechos cruciais entre o segundo e o terceiro volume de sua trilogia, assumindo uma postura firme contra o autoritarismo contemporâneo.
Para alimentar a narrativa ficcional, ele chegou a ler diários e relatos extremamente duros de amigos que sofreram tortura. Contudo, em vez de reproduzir a crueza factual de forma didática, o autor optou por lapidar esse material bruto através da imaginação, o grande pilar que sustenta o romance.
Na prática, isso muda mais do que parece. Em vez de criar um manifesto panfletário de denúncia, Hatoum preferiu construir um convite à empatia. Para ele, a capacidade de se colocar no lugar do outro e integrar as necessidades individuais ao bem comum é o único antídoto eficaz contra o egoísmo e o extremismo político.
A educação pública como o verdadeiro ato patriótico
Além de refletir sobre as dores do passado, Hatoum apontou caminhos para o futuro do país, localizando na educação pública o verdadeiro pilar de reconstrução democrática. Ele relembrou que o desmantelamento do ensino público começou justamente no período militar e que reverter esse cenário é o maior desafio da nossa cidadania.
Em um dos momentos mais emocionantes de sua fala, o escritor resgatou uma memória afetiva que ilustra o poder transformador do ensino. Ele relembrou sua professora de alfabetização, Maria Luiza Freitas Pinto, que guardou sua primeiríssima redação escolar por acreditar, desde cedo, no talento do jovem de Manaus.
O reencontro com a professora, anos mais tarde em uma noite de autógrafos, simboliza o elo indestrutível entre o incentivo à leitura e a formação humana. Ao persistir no ofício da escrita por mais de 35 anos, Milton Hatoum demonstra que a memória não é apenas um arquivo de saudades, mas uma ferramenta ativa de resistência e esperança ativa para as próximas gerações.