A historiadora Vera Lacerda, fundadora do Bloco Ara Ketu, durante participação no Festival Latinidades em Brasília.
(Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil)
Quando a professora de história Vera Lacerda decidiu fundar o Ara Ketu em março de 1980, no bairro periférico de Periperi, em Salvador, o objetivo passava longe dos holofotes da fama. Inconformada com a violência e a falta de perspectivas que empurravam os jovens do subúrbio ferroviário para a criminalidade, ela enxergou na música uma ferramenta de sobrevivência.
Quatro décadas depois, o som que conquistou o Brasil e o mundo mostra que sua maior vitória não está nos palcos, mas nas vidas transformadas. Mais de 3 mil jovens já passaram pelos cursos profissionalizantes do instituto, construindo caminhos bem distantes das estatísticas da exclusão social.
Essa trajetória de resistência e impacto social ganhou destaque recentemente no Festival Latinidades, em Brasília. No evento, Vera compartilhou sua história ao lado de outras vozes que usam a arte negra como escudo, acolhimento e transformação comunitária.
Como a indignação de uma professora mudou o destino do subúrbio
O nome da agremiação é uma homenagem direta à cidade de Ketu, no Benim, uma das regiões de onde foram traficadas mais pessoas escravizadas para o Brasil. Para Vera, resgatar essa ancestralidade era o primeiro passo para devolver a dignidade e a autoestima aos jovens da periferia baiana.
"Minha luta era tirar os meninos do tráfico de drogas e da marginalidade. Eu consegui muito", orgulha-se a professora, que hoje, prestes a completar 80 anos, vê ex-alunos integrados ao mercado de trabalho formal graças às oficinas promovidas pela instituição.
O reconhecimento por esse esforço contínuo ultrapassou as fronteiras da Bahia. Além do sucesso comercial do grupo musical, Vera Lacerda foi condecorada como "comendadora" pela Academia Brasileira de Letras devido ao seu incansável trabalho social.
A força feminina e o eco dos tambores no Pelourinho
O legado de Vera serve de inspiração para outras iniciativas lideradas por mulheres na capital baiana. É o caso do Bloco Didá, uma agremiação exclusivamente feminina fundada no Pelourinho por Neguinho do Samba e hoje presidida por sua filha, Débora Souza.
Com mais de 5 mil mulheres atendidas ao longo de sua história, o grupo utiliza a percussão como instrumento de denúncia, cura e emancipação. Na prática, o tambor deixa de ser apenas um instrumento musical e passa a ser um símbolo de poder político e pessoal.
"No bloco, a gente se sente empoderada. Armada com meu tambor, eu me sinto uma rainha", afirma Débora, destacando que a prioridade do projeto é garantir a liberdade e a autonomia financeira das mulheres da comunidade.
O impacto prático que atravessa gerações e fronteiras
A força desses movimentos soteropolitanos reverbera em outras partes do país, servindo de modelo para quem busca transformar realidades locais. Para a cantora e radialista Denise Oliveira, nascida na periferia de Brasília, iniciativas como o Ara Ketu e o Didá foram fundamentais para sua própria formação de identidade.
Hoje produtora da Rádio Nacional, Denise desenvolveu o projeto "Vozes da Diversidade", focado em dar visibilidade a artistas periféricos do Distrito Federal. O impacto de seu trabalho voluntário foi tão expressivo que lhe rendeu uma indicação ao prestigiado prêmio WME da Billboard em 2024.
Essas histórias interligadas provam que a cultura periférica, quando estruturada com responsabilidade social, é capaz de romper barreiras invisíveis. O tambor que dita o ritmo do Carnaval é o mesmo que abre caminhos profissionais, salva vidas e reconecta o Brasil com suas raízes mais profundas.