Efeitos severos da estiagem e da degradação do solo em área afetada no país.
(Imagem: ASA / Divulgação)
Uma área de terra degradada equivalente à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas foi incorporada ao mapa da desertificação no Brasil nas últimas duas décadas, ameaçando diretamente a sobrevivência de 39 milhões de pessoas. Esse avanço silencioso do colapso do solo põe em risco imediato a segurança hídrica e alimentar de comunidades agrícolas, povos indígenas e moradores de centros urbanos.
Longe de ser apenas um problema abstrato de clima seco, o fenômeno inviabiliza a produção de alimentos e esvazia mananciais históricos. Na prática, a perda de capacidade da terra de reter água e sustentar vida funciona como um efeito dominó de pobreza e calor extremo que já ultrapassa as fronteiras naturais do Nordeste.
O que muda na prática com o avanço da degradação
O monitoramento da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) aponta que cerca de 18% do território nacional já é considerado Área Suscetível à Desertificação. O problema, que historicamente se concentrava no Semiárido nordestino, expandiu-se de forma alarmante para o norte de Minas Gerais e do Espírito Santo, o noroeste de Mato Grosso do Sul e o nordeste do Rio de Janeiro.
Mais grave ainda foi a identificação, em 2023, da primeira área oficialmente árida do Brasil, um corredor de 6 mil quilômetros quadrados entre Pernambuco e Bahia. Essa transição climática extrema é impulsionada pela combinação de longos períodos de seca com ações humanas devastadoras, como o desmatamento da vegetação nativa e o manejo inadequado da agricultura.
Por que a Caatinga é o ponto central desta batalha
Entre os biomas brasileiros, a Caatinga é a principal vítima desse processo, com 11% de seu território em estado crítico de deterioração. No entanto, cientistas descobriram que este bioma não é o problema, mas sim uma das chaves para mitigar o aquecimento global.
Estudos conduzidos pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa) revelam que a Caatinga é um poderoso cofre de carbono, retendo 72% de todo o carbono que processa diretamente no solo. Em 2022, o bioma respondeu por metade de todo o sequestro líquido de carbono do país, ajudando a compensar as emissões de gases poluentes do Brasil.
Como as novas ações pretendem reverter o cenário
Para enfrentar a crise, o governo federal estruturou o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação (PAB-Brasil 2025–2043) e o Programa Recaatingar. A meta ousada é recuperar 10 milhões de hectares de terras degradadas ao longo de duas décadas, unindo técnicas agronômicas modernas ao conhecimento de comunidades tradicionais.
A aplicação prática dessas tecnologias sociais já mostra resultados expressivos no campo. O manejo agrossilvipastoril e a construção de barragens subterrâneas têm conseguido quadruplicar a oferta de alimento para animais sem derrubar árvores, retendo até 100 toneladas de solo por hectare anualmente contra a erosão.
A preservação desse ecossistema vivo e a garantia de água potável por meio de cisternas nas casas de famílias sertanejas são medidas que decidem o futuro climático do país. Manter a vegetação em pé e apoiar a agricultura familiar local não é mais apenas uma escolha ambiental, mas a única saída viável para evitar que o coração produtivo do interior brasileiro se transforme definitivamente em um deserto sem vida.