Lideranças indígenas de diversas regiões do Brasil se reúnem em Brasília durante o 22º Acampamento Terra Livre.
(Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil)
Brasília amanheceu tingida por cores, rituais e um clamor por justiça que ecoa por todo o país. O início da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) transformou o centro da capital federal em um palco de resistência, onde mais de seis mil indígenas, vindos de todas as regiões brasileiras, esperam um gesto definitivo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A expectativa gira em torno de uma visita presidencial ao evento, mas o tom não é apenas de celebração. As lideranças carregam na bagagem a urgência pela demarcação de terras indígenas, um processo que, na visão do movimento, ainda caminha a passos lentos diante do tamanho da dívida histórica do Estado.
Kleber Karipuna, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), confirmou que o diálogo com o governo federal está aberto para receber Lula ainda esta semana. Para o movimento, o momento é decisivo para entender o que o Palácio do Planalto planeja entregar de concreto até o fim deste ano.
O gargalo das demarcações e o passivo histórico
Os números apresentados pelas lideranças impressionam pela precisão técnica e jurídica. Antes da COP30, o governo recebeu um dossiê detalhando a situação de 107 terras indígenas aptas para regularização imediata. No entanto, o ritmo das homologações ainda é motivo de preocupação para quem vive sob a ameaça constante de invasões.
Segundo Karipuna, o Brasil precisa assumir o compromisso de proteger 58 milhões de hectares nos próximos cinco anos. Embora o atual governo tenha homologado 20 territórios nos últimos ciclos, um avanço se comparado à gestão anterior, o coordenador da Apib é enfático ao afirmar que isso é insuficiente para sanar os conflitos territoriais que assolam as comunidades.
Até março deste ano, o movimento identificou que pelo menos 76 terras indígenas já cumpriram todos os ritos burocráticos e aguardam apenas a assinatura final do presidente Lula. Outras 34 dependem de portarias do Ministério da Justiça para avançar no processo de reconhecimento oficial.
Violência de gênero e mobilização nas ruas
A pauta territorial não é a única que mobiliza o acampamento. A violência contra mulheres indígenas nas aldeias foi apontada por Luana Kayngang, coordenadora da Arpin-Sul, como um dos pontos mais sensíveis da atualidade. A vulnerabilidade dessas mulheres em ataques externos acendeu um alerta vermelho no movimento social.
Com o lema "Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida", o ATL planeja duas grandes marchas até a Praça dos Três Poderes. A primeira ocorre nesta terça-feira (7), com o intuito de pressionar parlamentares e membros do governo por avanços reais nas desintrusões de invasores em terras já demarcadas.
Em resposta às cobranças, o Ministério dos Povos Indígenas destacou que a criação da pasta em 2023 marcou o fim de uma "visão tutelar" e garantiu que indígenas ocupassem cargos de decisão. O governo reforça que, nos últimos três anos, a homologação de 2,2 milhões de hectares representa um esforço contínuo para recuperar direitos desmantelados no passado.