O senador Flávio Bolsonaro mantém apoio sólido de sua base eleitoral após o caso 'Dark Horse', aponta levantamento do Datafolha.
(Imagem: gerado por IA)
A fidelidade política no Brasil atingiu um nível de cristalização onde nem mesmo escândalos financeiros de alta voltagem parecem romper o núcleo duro dos eleitores. Mesmo sob o impacto direto das revelações do caso "Dark Horse", 88% dos eleitores de Flávio Bolsonaro defendem que o senador permaneça na disputa pela Presidência da República em 2026, ignorando a pressão externa por sua desistência.
Os dados, revelados por uma nova pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, mostram que o senador sofreu uma oscilação negativa na intenção de votos geral, mas seu exército de apoiadores optou por fechar fileiras. A polêmica envolve o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, de quem Flávio teria solicitado recursos para financiar um filme sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na prática, o levantamento indica que o conhecimento sobre o caso é maior justamente entre quem apoia o parlamentar: 72% de sua base afirma estar a par dos fatos, contra 64% da população em geral. O que para críticos soa como um golpe ético, para esse grupo parece ser interpretado apenas como mais um capítulo do embate político atual.
O que está por trás da resiliência bolsonarista
Para 73% desses eleitores, a confiança em Flávio Bolsonaro permanece inalterada, evidenciando uma blindagem que remete ao comportamento do eleitorado de 2022. Naquela ocasião, a lealdade já era alta, e hoje 92% dos que votaram em Jair Bolsonaro afirmam não ter qualquer arrependimento. Essa estabilidade sugere que a base não avalia o senador por episódios isolados, mas por uma identificação ideológica profunda.
Mas o impacto vai além da opinião subjetiva. Mais da metade dos apoiadores (53%) chega a considerar correta a decisão de buscar financiamento com Vorcaro, que atualmente está preso. Esse dado revela uma desconexão significativa entre a percepção da base e a do eleitorado geral, onde 64% desaprovam a conduta do senador e 48% acreditam que ele deveria abandonar a corrida presidencial.
Como isso afeta a corrida presidencial de 2026
Embora a base não tenha debandado, o estrago nas margens da candidatura é visível. Nas simulações de primeiro turno, Flávio recuou de 35% para 31% das intenções de voto. Esse movimento abriu espaço para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que oscilou positivamente para 40%. Em um eventual segundo turno, o cenário de equilíbrio foi substituído por uma vantagem leve de Lula, que agora marca 47% contra 43% do senador.
E é aqui que está o ponto central: o caso "Dark Horse" pode ter criado um teto eleitoral difícil de ser rompido. Enquanto Flávio mantém seus fiéis, ele parece perder terreno entre os eleitores moderados, essenciais para vencer uma eleição majoritária. Se a candidatura se tornar inviável juridicamente ou politicamente, o plano B já está traçado pelos próprios eleitores.
O que pode acontecer a partir disso
Caso Flávio Bolsonaro deixe o páreo, o nome de Michelle Bolsonaro surge como a sucessora natural. Ela é a preferida de 60% dos eleitores do senador, superando com folga o cunhado Eduardo Bolsonaro (15%) e governadores de direita como Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Essa transferência de votos quase automática reforça que o capital político da família permanece centralizado na figura do sobrenome e não apenas no indivíduo.
O cenário para os próximos meses indica que a estratégia da oposição será manter o caso Vorcaro em evidência, enquanto o bolsonarismo aposta na narrativa de perseguição política para manter seus números. A longo prazo, a sobrevivência política de Flávio dependerá de sua capacidade de expandir o diálogo para além desses 88% que, hoje, parecem dispostos a segui-lo independentemente das circunstâncias.