Julgamento no Quênia, Paul Mackenzie, de 53 anos, foi condenado a 200 anos de prisão
(Imagem: Reprodução @instagram)
O líder de uma seita apocalíptica no Quênia, Paul Mackenzie, de 53 anos, foi condenado a 200 anos de prisão nesta sexta-feira (6 de novembro de 2026), pela morte de 190 crianças e um adulto. A sentença foi determinada pela Justiça queniana após a conclusão de um processo que investigou mortes provocadas por jejuns extremos e assassinatos na região da floresta de Shakahola.
Mackenzie recebeu duas penas de 100 anos: uma pelos homicídios decorrentes da privação de alimentos e outra pelos casos classificados como homicídios diretos. As condenações correspondem a 191 vítimas, das quais 183 morreram de fome e oito foram assassinadas por outros meios, conforme a decisão judicial.
Outros 28 integrantes do grupo também foram condenados. As penas aplicadas aos demais réus variaram, chegando a 160 anos de prisão para um dos colaboradores do líder religioso.
Como funcionava a seita liderada por Paul Mackenzie?
Segundo a investigação, Mackenzie comandava a Good News International Church, organização religiosa que difundia ensinamentos apocalípticos. Ele dizia aos seguidores que o fim do mundo estava próximo e que o jejum até a morte permitiria alcançar o céu e encontrar Jesus.
A orientação era que os integrantes deixassem de comer, começando pelas crianças. Depois, o jejum deveria ser seguido por jovens, mulheres e homens adultos. Pessoas que resistiam às ordens eram submetidas a violência, ameaças, confinamento e privação de alimentos e água, segundo a acusação acolhida pelo tribunal.
O grupo também desencorajava práticas consideradas essenciais à vida cotidiana. Os seguidores eram orientados a não matricular os filhos em escolas e a evitar hospitais quando alguém adoecesse. A medicina moderna era apresentada como uma prática contrária às crenças da organização.
Mackenzie negou ter obrigado os integrantes a morrer de fome. A Justiça, entretanto, rejeitou sua defesa e considerou comprovada a responsabilidade dele pelas mortes.
Mais de 400 corpos foram encontrados na floresta de Shakahola
O caso ganhou repercussão internacional em 2023, quando as autoridades começaram a investigar denúncias sobre mortes de crianças e adultos na floresta de Shakahola, no litoral do Quênia.
As buscas levaram à descoberta de centenas de corpos enterrados em covas rasas e em outros locais da região. Ao longo das investigações, foram recuperados aproximadamente 448 corpos, embora muitos não tenham sido identificados devido ao avançado estado de decomposição.
A condenação de novembro de 2026 trata especificamente de 191 mortes. O número de vítimas encontradas na floresta é maior porque existem outras investigações e processos relacionados ao caso. Mackenzie também responde separadamente por acusações envolvendo outras mortes e crimes.
Seguidores deixaram empregos e famílias para viver na floresta
De acordo com o Ministério Público, os ensinamentos de Mackenzie levaram seguidores de diferentes partes do Quênia a abandonar suas antigas rotinas para se estabelecer na região de Shakahola.
A investigação apontou que integrantes do grupo venderam propriedades, pediram demissão dos empregos e retiraram os filhos da escola. Alguns também destruíram documentos de identificação antes de se mudar para os assentamentos organizados na floresta.
O objetivo era viver afastado da sociedade e seguir as orientações religiosas do líder. A permanência no local facilitava o controle sobre os integrantes e dificultava a identificação do que acontecia dentro da comunidade.
Justiça condenou líder e colaboradores
A sentença de 200 anos foi proferida pela juíza Diana Kavedza, no Tribunal Superior de Mombaça. A decisão também responsabilizou outros integrantes que participaram da estrutura do grupo, incluindo pessoas envolvidas na imposição dos jejuns e na ocultação dos corpos.
A investigação apontou que alguns colaboradores atuavam como vigilantes, impedindo que os seguidores desobedecessem às ordens, enquanto outros ajudavam a esconder as vítimas.
O caso da floresta de Shakahola se tornou um dos episódios mais graves de mortes em massa associados a uma organização religiosa nos últimos anos. A descoberta dos corpos e a condenação dos envolvidos também levantaram questionamentos sobre a fiscalização de grupos religiosos e a atuação das autoridades diante de denúncias anteriores.