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Combustíveis fósseis

Ameaça invisível: por que o metano dos combustíveis fósseis bate recordes e desafia o clima

A indústria de energia emitiu 124 milhões de toneladas de metano em 2025. O alerta da AIE reforça que reduzir o gás é a via mais rápida contra o aquecimento global.

04 mai 2026 - 08h31 Joice Gomes   atualizado às 08h33
Ameaça invisível: por que o metano dos combustíveis fósseis bate recordes e desafia o clima Instalações de extração de gás e petróleo são as principais fontes de emissão de metano evitáveis no setor de energia. (Imagem: gerado por IA)

A indústria global de energia despejou na atmosfera 124 milhões de toneladas de metano em 2025, um volume que desafia as metas climáticas e expõe a lentidão do setor em estancar vazamentos evitáveis. Os dados, revelados pela Agência Internacional de Energia (AIE), mostram que o setor de combustíveis fósseis é responsável por 35% das emissões deste gás geradas por atividades humanas.

Apesar dos alertas globais e dos compromissos internacionais, o índice registrado representa um leve aumento em relação aos 121 milhões de toneladas de 2024. Na prática, isso significa que o mundo continua operando em níveis próximos ao recorde histórico de 2019, sem sinais claros de uma trajetória de queda sustentada.

Diferente do dióxido de carbono (CO2), o metano tem um ciclo de vida mais curto na atmosfera, mas seu potencial de aquecimento é muito superior no curto prazo. Reduzir essas emissões agora é considerado por especialistas como a "alavanca mais rápida" para frear o aumento da temperatura global, que já subiu 30% sob influência direta desse gás desde a Revolução Industrial.

O que está por trás do aumento persistente

O setor petrolífero lidera o ranking de poluidores com 45 milhões de toneladas, seguido de perto pelo carvão (43 Mt) e pelo gás natural (36 Mt). O grande problema reside em processos técnicos muitas vezes invisíveis aos olhos, como o escape de gás em dutos antigos e operações de queima ou liberação intencional (venting) durante a produção.

O metano é o principal componente do gás natural e, por ser inodoro e invisível, muitos vazamentos passam despercebidos sem o monitoramento adequado. De acordo com a AIE, quase 60% das 580 milhões de toneladas emitidas anualmente no planeta vêm de mãos humanas, divididas majoritariamente entre a agropecuária e a exploração de energia.

Mas o impacto vai além do dano ambiental; trata-se também de uma questão de eficiência econômica e segurança energética. O relatório destaca que existem tecnologias comprovadas para evitar quase 30% dessas perdas em atividades fósseis sem custo adicional para as empresas, uma vez que o gás recuperado poderia ser vendido no mercado.

O que pode acontecer a partir de agora

A recuperação do metano desperdiçado poderia injetar cerca de 200 bilhões de metros cúbicos de gás por ano na economia global. Esse volume representa o dobro do que transita anualmente pelo Estreito de Ormuz, região estratégica atualmente ameaçada por conflitos geopolíticos no Oriente Médio que encarecem a energia no mundo todo.

A curto prazo, estancar os vazamentos mais críticos liberaria 15 bilhões de metros cúbicos de forma imediata, servindo como um colchão de segurança contra crises de abastecimento. Na prática, capturar esse gás não é apenas uma obrigação ambiental, mas uma estratégia de sobrevivência energética em um cenário de instabilidade internacional.

O caminho para o futuro depende da implementação rigorosa de tecnologias de detecção e da pressão política sobre os grandes produtores. Sem uma redução drástica e imediata nas emissões de metano, as metas de contenção do aquecimento global correm o risco de se tornar matematicamente inalcançáveis, independentemente do que for feito em relação ao CO2.

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