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Economia

Tesouro amplia recompra de títulos e faz maior atuação em mais de uma década para conter tensão nos juros

18 mar 2026 - 08h30 Joice Gomes
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Tesouro amplia recompra de títulos e faz maior atuação em mais de uma década para conter tensão nos juros Tesouro Nacional intensifica recompra de títulos públicos, movimenta R$ 43,6 bilhões em dois dias e tenta reduzir a instabilidade no mercado de juros. (Imagem: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo)

O Tesouro Nacional intensificou sua atuação no mercado de dívida e promoveu, em apenas dois dias, a maior recompra de títulos públicos em mais de dez anos. A operação somou R$ 43,6 bilhões e foi interpretada como uma resposta direta ao avanço da volatilidade nos juros futuros, num momento em que investidores acompanham com atenção redobrada os sinais de inflação, os desdobramentos do cenário internacional e a reunião do Comitê de Política Monetária.

Na prática, a medida busca melhorar o funcionamento do mercado em momentos de forte estresse. Ao recomprar papéis em circulação, o Tesouro injeta liquidez e tenta suavizar oscilações abruptas nos preços dos títulos, o que ajuda a evitar distorções mais amplas na curva de juros, indicador central para o custo de financiamento da economia.

Intervenção ganhou escala em dois pregões

O volume movimentado chamou a atenção pela rapidez. Depois de uma atuação robusta no início da semana, o Tesouro voltou ao mercado no dia seguinte com novas recompras bilionárias, distribuídas entre títulos prefixados e papéis corrigidos pela inflação. O total consolidado alcançou R$ 43,6 bilhões, marca que supera, em valores nominais, episódios recentes de grande instabilidade e coloca a operação entre as mais expressivas da série histórica recente.

O movimento não é comum em semanas sensíveis para a política monetária. Em geral, intervenções mais fortes tendem a ser evitadas em períodos próximos à decisão sobre a Selic, justamente para afastar ruídos na interpretação do mercado. Desta vez, porém, a avaliação foi de que a deterioração do ambiente exigia uma resposta imediata para impedir que a perda de liquidez se aprofundasse.

Pressão externa e incerteza interna pesaram

A reação do Tesouro ocorreu em meio a uma combinação de fatores que elevaram a aversão ao risco. No exterior, a alta do petróleo e a intensificação das tensões geopolíticas reforçaram o temor de novas pressões inflacionárias. Quando o preço da energia sobe com força, o efeito costuma se espalhar por cadeias produtivas, fretes e expectativas de preços, afetando a leitura dos agentes financeiros sobre os próximos passos dos bancos centrais.

No cenário doméstico, também houve cautela adicional. Ruídos políticos e a possibilidade de novos focos de paralisação no transporte de cargas aumentaram a percepção de instabilidade. Esse tipo de risco costuma gerar preocupação porque pode pressionar preços, comprometer a logística e influenciar o humor do mercado num momento em que o país já convive com juros elevados e incertezas sobre o ritmo da atividade econômica.

Por que a curva de juros importa

A curva de juros funciona como uma espécie de termômetro das expectativas do mercado. Ela reflete quanto investidores exigem para emprestar dinheiro ao governo em diferentes prazos e, por isso, ajuda a medir a percepção de risco, inflação e trajetória da taxa básica. Quando essas taxas sobem de forma acelerada, o impacto tende a ir além do mercado financeiro.

Isso acontece porque títulos públicos servem de referência para diversas operações da economia. O encarecimento dos juros futuros pode elevar o custo do crédito para empresas e consumidores, dificultar investimentos, pressionar o financiamento da dívida pública e reduzir o apetite por ativos de maior risco. Em momentos extremos, a turbulência se espalha rapidamente e contamina decisões que afetam produção, consumo e emprego.

Decisão do Copom elevou a sensibilidade

A intervenção ocorreu na véspera de uma definição importante para a política monetária. Com o mercado dividido sobre a intensidade do próximo movimento da Selic, qualquer oscilação adicional nos ativos passou a ser observada com ainda mais cuidado. Nas semanas anteriores, parte relevante dos agentes enxergava espaço para um corte maior de juros, mas a piora do ambiente internacional e a volta da cautela reduziram esse otimismo.

Esse contexto ajuda a explicar por que a atuação do Tesouro ganhou tamanho peso. Mais do que conter um dia ruim no mercado, a recompra buscou evitar que o estresse contaminasse de forma mais duradoura as expectativas para a inflação e para a própria política monetária. Em momentos assim, o objetivo não é fixar preços, mas impedir movimentos desordenados que prejudiquem a formação normal das taxas.

Alívio parcial ainda não encerra cautela

Mesmo com a atuação bilionária, os sinais de tensão não desapareceram completamente. As taxas de vencimentos intermediários continuaram pressionadas ao fim do pregão, enquanto outros ativos domésticos também oscilaram ao longo do dia. O comportamento mostrou que a intervenção ajudou a reduzir parte do desconforto, mas não foi suficiente para eliminar as dúvidas do mercado diante de um quadro ainda instável.

O desdobramento das próximas sessões dependerá da evolução do cenário externo, da resposta dos preços das commodities, da percepção sobre riscos internos e, sobretudo, da comunicação das autoridades econômicas. Se a volatilidade persistir, novas atuações podem voltar ao radar. Por outro lado, um ambiente mais estável tende a reduzir a necessidade de intervenções adicionais e a devolver previsibilidade à negociação dos títulos públicos.

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