Representação editorial de laboratório universitário voltado ao desenvolvimento de tecnologias assistivas e inclusão de pessoas autistas.
(Imagem: gerado por IA)
A Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) criou uma iniciativa voltada ao desenvolvimento de tecnologias assistivas e à inclusão de pessoas autistas em ambientes acadêmicos e profissionais. A ação reúne formação prática, pesquisa e protótipos criados por estudantes para responder a necessidades diferentes dentro do espectro.
Uma das frentes é a Plataforma Digital da Sociedade Autista, que oferece formação em inteligência artificial, planilhas e outras ferramentas tecnológicas para 50 estudantes autistas com diferentes níveis de suporte.
Formação inclui acompanhamento após entrada no mercado
O ciclo de capacitação ocorre no campus da USP e termina no fim de setembro. Participantes que já ingressaram em empresas parceiras continuam sendo acompanhados por mais três meses, etapa pensada para observar adaptação, rotina, comunicação e demandas de suporte no ambiente de trabalho.
A proposta reconhece que inclusão não termina na contratação. Permanência, acessibilidade e condições adequadas de trabalho são parte do processo.
Projeto desenvolveu 24 soluções
Em uma disciplina voltada à criação de produtos inclusivos, estudantes desenvolveram 24 projetos com foco em comunicação, regulação sensorial, autonomia e vida cotidiana.
As soluções partem do princípio de que o autismo é um espectro: pessoas diferentes podem ter necessidades muito distintas, e uma tecnologia útil para um grupo pode não servir a outro.
Prancha digital de comunicação pode ser baixada gratuitamente
Entre os projetos está o Adapte Board, prancha de comunicação alternativa e aumentativa criada pelo estudante Emanuel Santana. A ferramenta foi pensada para uso em smartphones e computadores e permite personalização conforme as necessidades do usuário.
O recurso pode apoiar pessoas com fala limitada ou dificuldades de comunicação verbal em determinados contextos.
IA também é usada para música e regulação sensorial
Outro projeto utiliza inteligência artificial para auxiliar na composição musical. Como o processamento da ferramenta pode levar cerca de dois minutos, os estudantes incluíram uma atividade de respiração com bolhas durante a espera, reduzindo ansiedade e tornando a experiência mais previsível.
Esse tipo de detalhe mostra como desenho inclusivo vai além da função principal do software e considera o modo como a pessoa interage com o sistema.
Pulseira monitora sinais de estresse
O SensiLogic é uma pulseira voltada ao monitoramento de frequência cardíaca e outros sinais associados a situações de estresse. A ideia é gerar alertas que possam ajudar o próprio usuário ou pessoas de apoio a identificar momentos de sobrecarga.
O dispositivo não substitui avaliação médica ou psicológica, mas funciona como ferramenta de percepção e acompanhamento.
Projetos mapeiam ruídos e ajudam na comunicação
O Aces busca identificar frequências e sons que provocam desconforto sensorial. Já o Expressa usa botões físicos para gerar mensagens, alternativa para pessoas não falantes ou que preferem formas de comunicação mais diretas.
Outro protótipo, o LiteralMente, trabalha com interpretação de entonação e intenção de fala, tema relevante para usuários que têm dificuldade em reconhecer ironia, ambiguidade ou mudanças de tom.
Educação financeira também entrou nos projetos
A iniciativa Aventura Financeira transforma escolhas econômicas do cotidiano em um tabuleiro eletrônico, com situações práticas sobre gastos, planejamento e tomada de decisão.
A proposta é trabalhar autonomia sem presumir um único perfil de aprendizagem, oferecendo estímulos visuais e interação estruturada.
Inclusão tecnológica exige participação das próprias pessoas autistas
Especialistas em acessibilidade defendem que tecnologias assistivas sejam desenvolvidas com participação direta dos usuários. Isso reduz o risco de criar soluções baseadas apenas em expectativas externas sobre o que seria útil.
O laboratório da Poli-USP aposta justamente nessa aproximação entre engenharia, experiência de uso e inclusão. O objetivo não é criar uma tecnologia única para o autismo, mas ampliar o repertório de ferramentas capazes de atender necessidades diversas.