Filme foi escolhido para representar o Brasil na disputa pelo Oscar.
(Imagem: Paris Filmes/Divulgação)
O diretor cearense Allan Deberton afirma que as relações familiares são o centro emocional de Feito Pipa, longa escolhido para representar o Brasil na corrida por uma vaga no Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional.
Em entrevista à Agência Brasil, o cineasta contou que a história foi construída a partir de memórias e experiências afetivas ligadas à própria formação familiar. Criado em grande parte pela avó e por tias, Deberton levou para o roteiro a ideia de uma infância marcada por cuidado, pertencimento e, ao mesmo tempo, pelo medo da ruptura.
Gugu vive entre afeto, liberdade e medo de separação
No filme, Gugu tem 11 anos e vive com a avó Dilma, responsável por criá-lo de forma afetuosa e com espaço para que ele expresse sua personalidade. O menino gosta de futebol, dança e maquiagem e se move por um universo em que afeto e liberdade aparecem como elementos fundamentais.
O conflito se intensifica quando Dilma começa a apresentar sinais de perda de memória e o menino passa a enfrentar a possibilidade de deixar a casa da avó para viver com o pai, com quem mantém uma relação mais distante e menos acolhedora.
Avó e pai representam formas diferentes de vínculo
Deberton trata a tensão familiar sem reduzir os personagens a figuras simples de certo ou errado. A avó oferece proteção e compreensão, enquanto o pai aparece como alguém que ainda precisa aprender a enxergar o filho de forma mais ampla.
Esse contraste ajuda a construir o principal dilema de Gugu: lidar com a perda gradual da referência que o criou e entrar em um território emocional desconhecido.
História dialoga com memória do próprio diretor
O cineasta relaciona a obra à própria experiência familiar e diz que buscou trabalhar com uma narrativa simples na aparência, mas carregada de profundidade afetiva.
Segundo ele, histórias familiares podem alcançar públicos muito diferentes justamente porque temas como cuidado, medo da perda, conflito entre gerações e desejo de aceitação atravessam contextos culturais distintos.
Quixadá não é apenas cenário
As filmagens ocorreram em Quixadá e cidades próximas, no interior do Ceará. Deberton afirma que a geografia local foi escolhida para funcionar como parte da narrativa, e não apenas como fundo visual.
Os monólitos, estradas, espaços abertos e a paisagem do sertão reforçam a sensação de deslocamento e transformação vivida pelo protagonista. Para o diretor, o território modifica a forma como a história é percebida e ajuda a criar identidade própria para o filme.
Crianças foram dirigidas em busca de espontaneidade
Outro ponto destacado por Deberton é o trabalho com atores jovens. O diretor afirma que buscou preservar espontaneidade e verdade nas cenas, evitando interpretações excessivamente marcadas ou artificiais.
Yuri Gomes, intérprete de Gugu, recebeu menção honrosa no Festival de Gramado. O cineasta considera a naturalidade do elenco infantil uma das forças do longa.
Filme passou por Berlim e Gramado
Feito Pipa já havia chamado atenção antes de ser escolhido como representante brasileiro no Oscar. No Festival de Berlim, recebeu o Urso de Cristal concedido pelo Júri Jovem e o Grand Prix do Júri Internacional.
Em Gramado, venceu quatro Kikitos, incluindo direção para Allan Deberton, atriz para Teca Pereira e ator coadjuvante para Lázaro Ramos.
Campanha internacional já começou
Com a escolha da Academia Brasileira de Cinema, a equipe iniciou uma nova fase de divulgação internacional. Deberton afirmou que o trabalho inclui circulação em festivais, exibições estratégicas e diálogo com parceiros nos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o diretor ressalta que o desempenho do filme no Brasil continua sendo prioridade. A estreia comercial está prevista para 5 de novembro.
Oscar é consequência de uma trajetória, diz cineasta
A disputa por uma indicação ao Oscar amplia a visibilidade da produção, mas Deberton evita tratar a escolha brasileira como ponto final. Para ele, a força do projeto está na capacidade de criar identificação por meio de uma história íntima e regional.
Ao transformar experiências familiares e paisagens do Ceará em uma narrativa de alcance internacional, Feito Pipa aposta justamente naquilo que o diretor considera mais universal: relações de afeto, cuidado e pertencimento.