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Ter, 06 de Outubro
Pesquisa internacional

Pterossauro do Ceará: descoberto mecanismo raro que "congelou" tecidos por 113 milhões de anos

Descoberta na Bacia do Araripe revela como bactérias preservaram tecidos e moléculas de um pterossauro de 113 milhões de anos, abrindo nova janela para a ciência.

21 jun 2026 - 13h54 Joice Gomes   atualizado às 13h56
Pterossauro do Ceará: descoberto mecanismo raro que "congelou" tecidos por 113 milhões de anos Fóssil de pterossauro da Bacia do Araripe preserva tecidos e moléculas orgânicas raras. (Imagem: gerado por IA)

Um pterossauro de oito metros de envergadura, que dominava os céus do que hoje é o Sertão do Ceará há 113 milhões de anos, acaba de revelar um segredo biológico impressionante. Uma pesquisa internacional identificou um mecanismo inédito de fossilização que permitiu a preservação de tecidos moles e até moléculas orgânicas extremamente frágeis, como esteroides.

A descoberta ocorreu na Formação Romualdo, situada na Bacia do Araripe, e envolveu especialistas de 15 instituições renomadas do Brasil, Austrália, Alemanha e Estados Unidos. O achado é considerado um marco, pois essas moléculas normalmente desapareceriam em questão de dias após a morte do animal, mas foram mantidas pela geologia única da região.

O que torna este fóssil uma peça única no mundo é a sua preservação tridimensional excepcional. Graças a análises avançadas de geoquímica e tomografia 3D, os cientistas conseguiram entender como a biologia do animal foi "selada" pelo tempo antes mesmo que a decomposição pudesse destruir os detalhes mais sutis de sua anatomia.

O que muda na prática com o "efeito dominó" bacteriano

O estudo revela que a chave para essa conservação perfeita foi uma atuação específica de bactérias oxidantes de enxofre. Em um processo descrito como um "efeito dominó" químico, a decomposição inicial do pterossauro criou microambientes que alimentaram esses microrganismos, desencadeando uma rápida precipitação de minerais.

Na prática, isso muda mais do que parece. Esse processo mineralizou os tecidos tão rapidamente que capturou moléculas de esteroides. Segundo a pesquisadora Kliti Grice, da Universidade Curtin, na Austrália, esses traços químicos fornecem evidências diretas sobre a dieta dessas criaturas, sugerindo que elas se alimentavam predominantemente de peixes ou lulas.

Essa "cápsula do tempo" química permite que paleontólogos acessem informações que antes eram consideradas perdidas para sempre. Em vez de apenas estudar ossos, a ciência agora consegue olhar para o metabolismo e a ecologia alimentar de seres que viveram na era dos dinossauros.

Por que o Araripe é o centro das atenções mundiais

O exemplar analisado pertence ao grupo Anhangueridae, répteis voadores que foram os primeiros vertebrados a dominar o voo motorizado. Com quase 8 metros de abertura alar, esses gigantes eram os soberanos dos ares, e encontrar um exemplar tão detalhado reforça o status da Bacia do Araripe como um dos sítios fossilíferos mais importantes do planeta.

Para o paleontólogo Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional/UFRJ, o nível de detalhe é extraordinário. A parceria entre instituições brasileiras, como a Universidade Regional do Cariri (URCA), e centros internacionais coloca o Brasil na fronteira do conhecimento paleontológico, utilizando tecnologia de ponta para decifrar a vida pré-histórica.

Mas o impacto vai além da curiosidade histórica. Compreender esses mecanismos de preservação ajuda a ciência a entender como a matéria orgânica se comporta em escalas de tempo geológicas, influenciando áreas que vão da biologia evolutiva à própria geoquímica mineral.

Este achado, publicado recentemente na revista científica iScience, é um lembrete de que o patrimônio científico brasileiro ainda guarda segredos capazes de espantar a comunidade internacional. À medida que novas tecnologias de análise surgem, o Sertão do Ceará continuará a ser, provavelmente, o lugar onde o passado se recusa a desaparecer completamente.

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