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Poluição

"Insetos dos mares": como minúsculos crustáceos levam microplásticos ao fundo do oceano

Estudo revela que crustáceos microscópicos transportam microplásticos para as profundezas do mar, poluindo o leito oceânico e ameaçando o clima global de forma irreversível.

05 abr 2026 - 21h03 Joice Gomes   atualizado às 21h05
"Insetos dos mares": como minúsculos crustáceos levam microplásticos ao fundo do oceano Os copépodes são fundamentais para o ecossistema marinho, mas agora atuam como vetores de poluição plástica. (Imagem: gerado por IA)

Imagine um exército invisível trabalhando 24 horas por dia para levar poluição para o único lugar da Terra onde não podemos retirá-la. Um estudo recente acaba de confirmar que os copépodes, minúsculos crustáceos que sustentam a vida marinha, estão ingerindo microplásticos na superfície e os "enterrando" no fundo do oceano, criando um estoque de lixo eterno que ameaça o clima e a nossa própria segurança alimentar.

A descoberta, publicada no prestigiado Journal of Hazardous Materials, revela que o caminho desses poluentes é curto, mas devastador. Após serem engolidas por esses seres diminutos, as partículas permanecem cerca de 40 minutos no trato digestivo antes de serem expelidas. No entanto, o problema não é o tempo, mas a forma.

Ao saírem do corpo do animal em pelotas fecais densas e pesadas, os microplásticos ganham uma espécie de "passagem só de ida" para o leito marinho. Se antes eles flutuavam na superfície, onde ainda poderiam sofrer alguma degradação, agora eles descem para sedimentos onde a luz não chega, tornando qualquer tentativa de remoção virtualmente impossível.

O impacto invisível na base da cadeia alimentar

Frequentemente chamados de "insetos dos mares" por causa de sua imensa população, os copépodes ocupam a base da teia alimentar oceânica. No Canal da Mancha, por exemplo, estima-se que esses organismos transportem diariamente 271 partículas de microplástico por metro cúbico para as camadas mais profundas.

Este mecanismo transforma o que deveria ser uma fonte vital de nutrientes para larvas de peixes em veículos de poluição. O resultado é um ciclo vicioso: o zooplâncton alimenta-se de resíduos ininterruptamente, e esses resíduos acabam retornando para toda a fauna marinha através do consumo de suas próprias fezes contaminadas.

Além da sujeira física, a pesquisa acende um alerta vermelho para o clima global. Segundo o Dr. Ihsanullah Obaidullah, da Universidade de Sharjah, os microplásticos estão interferindo na chamada "bomba biológica de carbono". Esse é o processo natural pelo qual o oceano retira o CO2 da atmosfera e o armazena nas profundezas, funcionando como um escudo contra o aquecimento global.

A ameaça da plastisfera e o equilíbrio climático

A situação ganha contornos ainda mais graves com o desenvolvimento da plastisfera. Trata-se de uma comunidade de micróbios que cresce sobre as partículas plásticas. À medida que esses materiais se degradam no oceano, eles podem emitir gases de efeito estufa, acelerando a acidificação das águas e a perda de biodiversidade.

Para Valentina Fagiano, coautora do estudo, os resultados são fundamentais para entender para onde o lixo plástico está indo e quais espécies estão sob maior risco. A pesquisa deixa uma lição clara sobre a interconectividade: as ações coletivas de seres quase invisíveis podem provocar mudanças drásticas em nível planetário.

No fim, o que acontece no fundo do mar não fica apenas lá. O comprometimento do maior sumidouro de carbono do planeta é um lembrete urgente de que a poluição plástica não é apenas um problema estético nas praias, mas uma ameaça direta à estabilidade do clima e à vida como a conhecemos.

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