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Astronomia

Sinal cósmico de 8 bilhões de anos-luz chega à Terra e pode ser o mais poderoso já detectado

15 mar 2026 - 10h55 Joice Gomes   atualizado às 10h58
Sinal cósmico de 8 bilhões de anos-luz chega à Terra e pode ser o mais poderoso já detectado Astrônomos detectaram um gigamaser de hidroxila a 8 bilhões de anos-luz usando o radiotelescópio MeerKAT. (Imagem: gerado por IA)

Um sinal cósmico de intensidade extraordinária, originado a cerca de 8 bilhões de anos-luz da Terra, foi captado pelo radiotelescópio MeerKAT, localizado na África do Sul. A detecção, realizada por uma equipe internacional vinculada à Universidade de Pretória, coloca esse registro entre os eventos mais energéticos já observados pela astronomia moderna.

O fenômeno tem origem no sistema de galáxias em fusão denominado HATLAS J142935.3-002836, e foi classificado pelos pesquisadores como um megamaser de hidroxila, uma espécie de laser natural que opera no espectro de micro-ondas. Pela intensidade incomum do sinal, há fortes indícios de que ele pertença a uma categoria ainda mais rara: o gigamaser, um tipo de emissão cósmica bilhões de vezes mais poderoso do que masers convencionais.

O que é um gigamaser

Masers cósmicos funcionam de forma análoga a lasers, mas operam em comprimentos de onda muito maiores — cerca de 18 centímetros. Eles surgem quando moléculas de hidroxila (compostas por hidrogênio e oxigênio) são excitadas em ambientes de extrema densidade energética e passam a emitir ondas de rádio de forma altamente coordenada e amplificada.

Quando duas galáxias entram em processo de fusão, enormes nuvens de gás e poeira são comprimidas com violência. Esse ambiente extremo favorece reações moleculares intensas, que disparam emissões amplificadas de micro-ondas. O sinal detectado foi registrado na frequência de 1.667 megahertz e superou o recorde anterior de distância para esse tipo de fenômeno, com luz que viajou cerca de 7,82 bilhões de anos-luz até o MeerKAT.

A intensidade desse caso foi tão absurda que os cientistas consideraram insuficiente a classificação de megamaser. A categoria de gigamaser foi proposta justamente para acomodar emissões que ultrapassam em muito os limites do que havia sido observado anteriormente.

Como o sinal chegou até nós

A detecção só foi possível graças a um alinhamento astronômico raro. Uma galáxia intermediária, posicionada entre a Terra e o sistema HATLAS, atuou como uma lente gravitacional, efeito previsto pela teoria da relatividade geral de Albert Einstein. A gravidade dessa galáxia curvou o espaço-tempo ao redor, funcionando como uma lente natural que amplificou o sinal emitido.

Sem esse efeito, o gigamaser seria invisível até mesmo para a sensibilidade do MeerKAT. O alinhamento fortuito permitiu que os pesquisadores não apenas detectassem o fenômeno, mas também analisassem detalhes estruturais que de outra forma permaneceriam inacessíveis.

Por que a descoberta importa

Colisões entre galáxias são processos fundamentais na evolução do universo. Ao estudar emissões como essa, os astrônomos conseguem mapear como as estruturas cósmicas se formaram e se transformaram ao longo de bilhões de anos. O fato de o sinal ter percorrido mais da metade da idade estimada do universo antes de chegar à Terra oferece uma janela rara para o passado cósmico.

Os pesquisadores apontam que a mesma técnica que permitiu essa descoberta poderá ser replicada para identificar centenas ou até milhares de outros sistemas galácticos em fusão ainda desconhecidos. Cada novo caso contribui para reconstruir a história da formação das galáxias e entender os processos que moldaram o universo como ele é hoje.

  • O sinal foi detectado na frequência de 1.667 megahertz, característica da emissão de moléculas de hidroxila
  • A distância de 7,82 bilhões de anos-luz estabelece um novo recorde para esse tipo de fenômeno
  • A amplificação por lente gravitacional foi determinante para tornar o sinal detectável
  • O MeerKAT, instrumento central da descoberta, é um precursor do maior radiotelescópio do mundo, o SKA

A própria Via Láctea deverá passar por um processo semelhante no futuro distante. As previsões científicas indicam que nossa galáxia colidirá com a galáxia de Andrômeda em aproximadamente 5 bilhões de anos. Embora o evento seja de grande escala estrutural, os cientistas avaliam que estrelas e planetas raramente se chocam diretamente durante fusões galácticas, o espaço entre eles é vasto demais para isso.

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