Projeto MyGender Dolls, Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos
(Imagem: Foto: Ilustrativa/Reprodução)
Uma iniciativa desenvolvida por pesquisadoras da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, chamou a atenção de autoridades e provocou questionamentos sobre o uso de materiais relacionados à identidade de gênero durante a infância. O projeto MyGender Dolls reúne bonecas de papel com roupas, cabelos e acessórios intercambiáveis, além de peças anatômicas removíveis, incluindo genitais internos e externos.
A ferramenta foi concebida para atividades terapêuticas com crianças de 4 a 10 anos que apresentam diversidade de gênero. Segundo a descrição divulgada pelos responsáveis, a proposta é ajudar os participantes a conversar sobre o corpo, a identidade e as diferentes formas de expressão por meio de brincadeiras orientadas.
O projeto está ligado ao Instituto Eli Coleman de Saúde Sexual e de Gênero, da Universidade de Minnesota. Entre as pesquisadoras associadas à iniciativa estão Dianne Berg e G. Nic Rider.
Como funcionam as bonecas MyGender Dolls
As MyGender Dolls seguem um modelo semelhante ao das tradicionais bonecas de papel. Os personagens podem receber diferentes combinações de roupas, penteados e acessórios, mas o material também inclui componentes anatômicos que podem ser colocados e retirados.
De acordo com a apresentação do projeto, o conjunto possui mais de 100 peças intercambiáveis. As bonecas foram desenhadas com diferentes características físicas, idades e tons de pele, permitindo que as crianças montem representações variadas.
A iniciativa é apresentada como uma ferramenta terapêutica destinada principalmente a profissionais licenciados que trabalham com crianças e famílias. O objetivo informado pelos pesquisadores é facilitar conversas sobre corpo e gênero, especialmente quando a criança encontra dificuldades para expressar sentimentos e experiências.
A proposta, portanto, não corresponde à realização de procedimentos médicos ou cirúrgicos. O material é apresentado como um recurso de apoio a atividades conduzidas por profissionais.
Projeto recebeu financiamento da Universidade em 2023
O histórico da iniciativa inclui um reconhecimento institucional em 2023. Naquele ano, o MyGender Dolls recebeu apoio do programa Early Innovation Fund, da Universidade de Minnesota, voltado ao desenvolvimento de projetos inovadores em estágio inicial.
O relatório anual de 2023 do centro de pesquisa também registra a obtenção de financiamento e doações para aperfeiçoar as bonecas, ampliar as opções de personagens e desenvolver roupas e acessórios.
A documentação pública consultada não informa o valor exato concedido ao projeto pelo programa. Por isso, não é possível afirmar que a equipe recebeu o limite máximo de recursos previsto para esse tipo de incentivo.
Em 2024, a iniciativa também promoveu atividades de pesquisa com crianças e responsáveis. Uma divulgação feita pelo centro de pesquisa convidou crianças trans e com diversidade de gênero, entre 5 e 10 anos, acompanhadas dos pais, para participar de encontros em grupo e experimentar as atividades com as bonecas.
A divulgação informava pagamentos entre US$ 20 e US$ 60 por grupo de participação. A proposta era recolher opiniões das famílias e sugestões para aperfeiçoar o material.
Investigação federal questiona possível utilização em escolas
O projeto ganhou repercussão nacional em julho de 2026, quando o Departamento de Educação dos Estados Unidos anunciou uma investigação sobre o Departamento de Educação de Minnesota.
A apuração foi aberta após uma denúncia apresentada pela organização Defending Education, em nome de pais que questionaram a possibilidade de atividades com as bonecas serem realizadas em escolas sem comunicação ou autorização das famílias.
O órgão federal informou que pretende verificar o cumprimento da Protection of Pupil Rights Amendment (PPRA), legislação que estabelece garantias relacionadas à privacidade dos estudantes e ao direito dos pais de acompanhar determinadas atividades escolares que envolvam informações sensíveis.
A controvérsia também chegou ao Congresso americano. Em 28 de agosto de 2026, a Comissão de Educação e Trabalho da Câmara dos Representantes anunciou uma investigação para esclarecer a origem dos recursos utilizados no projeto e verificar se houve participação de dinheiro público.
A comissão solicitou informações à universidade sobre o financiamento, a utilização das bonecas e possíveis planos de implementação em escolas públicas.
Até o momento, a abertura das investigações não representa uma conclusão de que houve violação da legislação. Também há uma divergência sobre a utilização do material nas escolas: os pesquisadores afirmaram que as bonecas não seriam usadas em escolas públicas naquele ano e que a ferramenta seria destinada a profissionais licenciados.
Caso de John Money e David Reimer
O debate sobre identidade de gênero também remete a episódios históricos da medicina e da psicologia. Um dos mais conhecidos envolve o psicólogo John Money e David Reimer, que nasceu em 1965 e sofreu uma grave lesão durante uma circuncisão, ainda bebê.
Após o acidente, os pais procuraram especialistas e receberam a recomendação de criar a criança como menina. O bebê, inicialmente chamado Bruce, passou a ser conhecido como Brenda e foi submetido a intervenções médicas durante a infância.
Money utilizou o episódio para defender suas ideias sobre a influência da criação e da socialização no desenvolvimento da identidade de gênero. Anos depois, entretanto, David tornou pública sua história e relatou que nunca havia se identificado como menina.
O caso se tornou uma referência histórica nos debates sobre identidade, intervenções médicas na infância e ética em pesquisas científicas.
A trajetória de David Reimer também inspirou o filme O Menino que se Chamava Brenda, produção da Brasil Paralelo que apresenta o episódio envolvendo a família Reimer e o psicólogo John Money.
Jornalista formado pela UNIFG. Experiência de 4 anos em redação política. Atuou como redator em duas eleições. Criou e apresentou o programa “Fala Político”, onde entrevistou diversos políticos da Região Metropolitana do...
Ver todas as publicações