Encontros sociais e churrascos entre amigos devem dominar o orçamento do brasileiro para o Mundial de 2026.
(Imagem: gerado por IA)
A Copa do Mundo de 2026 ainda parece distante no calendário, mas o planejamento financeiro do brasileiro para o evento já começou a ser desenhado com uma prioridade clara: a experiência compartilhada à mesa. Diferente de edições passadas, onde a busca pela nova 'amarelinha' dominava o varejo, o foco agora recai sobre o que será servido durante os 90 minutos de jogo.
Um levantamento inédito realizado pelo Instituto Locomotiva, em parceria com a QuestionPro, revela que 64% dos brasileiros pretendem investir prioritariamente em comidas e bebidas para assistir às partidas com amigos e familiares. Em contrapartida, o interesse pela compra de camisetas ou produtos licenciados aparece em um patamar inferior, citado por 48% dos entrevistados. Essa mudança de comportamento sinaliza que, diante de orçamentos mais apertados, a celebração em comunidade tornou-se um valor inegociável.
Na prática, isso muda mais do que parece no cenário comercial. O desejo de estar junto e o ritual do churrasco ou do petisco superam a necessidade estética de vestir o uniforme oficial. Esse movimento é impulsionado por uma combinação de fatores econômicos e sociais que redesenham a forma como o país se prepara para o maior espetáculo do futebol mundial.
O dilema do uniforme: luxo oficial ou o 'Brasil real'?
Quando o assunto é o vestuário, a divisão de classes revela um abismo no acesso aos produtos licenciados. Entre os que pretendem adquirir uma camisa, apenas 25% buscam os modelos oficiais, enquanto a maioria se divide entre versões não oficiais ou simplesmente descarta a compra. Nas classes D e E, a preferência por modelos alternativos chega a 33%, evidenciando que o preço da indumentária oficial é o principal barreira de entrada.
O fator financeiro é, sem dúvida, o grande balizador dessa escolha. Entre os 51% que afirmam que não pretendem comprar nenhuma vestimenta para a Copa, a esmagadora maioria (64%) justifica a decisão pelo alto custo. Mas o impacto vai além do bolso: questões políticas e até o desinteresse pelo esporte aparecem como motivos secundários, mostrando que a relação do brasileiro com a camisa da seleção atravessa um momento de ressignificação.
E é aqui que está o ponto central: para muitos, o investimento em uma camisa oficial comprometeria o orçamento de várias celebrações. Assim, o consumidor opta pelo que gera gratificação imediata e coletiva. Afinal, a Copa no 'Brasil real' acontece na mesa posta e no encontro entre gerações.
A economia do afeto: por que o churrasco vence a vitrine
As variações de renda também moldam a intensidade da festa. Enquanto 74% das classes A e B planejam gastos significativos com comemorações em grupo, esse índice cai para 49% nas classes D e E. No entanto, mesmo com menos recursos, o esforço para garantir o encontro social permanece como o pilar da experiência do Mundial.
Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, esses números são o reflexo de como o futebol está entranhado na rotina de forma prática. Segundo ele, a Copa entra no orçamento porque entra antes na vida cotidiana, manifestando-se no bolão do trabalho, no álbum de figurinhas trocado com os filhos e na aposta simbólica entre colegas. São rituais que despertam memórias afetivas e influenciam escolhas de consumo de forma muito mais profunda do que uma simples campanha de marketing.
Outro dado que reforça essa conexão emocional é a manutenção do hábito de colecionar figurinhas. Cerca de 30% da população mantém o interesse pelo álbum oficial, índice que sobe para 35% entre quem tem filhos. Para esse grupo, o gasto não é visto apenas como consumo, mas como uma ferramenta de interação e diversão familiar, resistindo inclusive à digitalização do entretenimento.
O que esperar do comportamento de consumo até 2026
A tendência é que o mercado de bens de consumo não duráveis como bebidas, carnes e snacks, veja um aquecimento muito mais vigoroso do que o setor de vestuário e acessórios conforme o torneio se aproxima. O bolão, outra tradição brasileira, deve engajar cerca de 39% da população, servindo como o 'lubrificante social' que mantém o interesse nos jogos, independentemente do desempenho técnico da equipe em campo.
A Copa de 2026 promete ser, acima de tudo, um evento de conexões humanas e resgate de tradições simples. O brasileiro parece ter compreendido que, embora a camisa oficial tenha seu valor simbólico, é a alegria compartilhada em torno da mesa que realmente define a experiência de ser o país do futebol. No fim das contas, a prioridade será garantir que, independentemente do placar, a celebração com quem se gosta esteja garantida.