0:00 Ouça a Rádio
Qua, 15 de Julho
Imposto de Renda

O abismo entre a medicina e o fisco: Por que a lei do Imposto de Renda ignora doenças raras

A lei de isenção do IR de 1988 ignora milhares de doenças raras, sobrecarregando brasileiros com altos custos de tratamento. Entenda o que pode mudar.

23 mai 2026 - 12h59 Joice Gomes   atualizado às 13h01
O abismo entre a medicina e o fisco: Por que a lei do Imposto de Renda ignora doenças raras A defasagem na lista de isenções da Receita Federal gera impasses jurídicos e financeiros para pacientes de doenças raras. (Imagem: gerado por IA)

Milhares de brasileiros que convivem com patologias complexas e tratamentos de alto custo enfrentam hoje um desafio que vai muito além dos consultórios médicos: a defasagem da legislação tributária. Enquanto a medicina já cataloga cerca de 8 mil doenças raras no mundo, a Receita Federal permanece amarrada a uma lista de apenas 16 condições estabelecidas há mais de três décadas.

Essa discrepância cria uma injustiça financeira direta para aposentados e pensionistas com deficiência ou doenças raras que, apesar da gravidade de seus quadros, não conseguem o direito à isenção do Imposto de Renda. Na prática, o fisco ignora o impacto funcional e econômico de novos diagnósticos em prol de um texto literal e restritivo que não acompanhou a evolução da ciência.

O ponto central do conflito está na Lei 7.713, de 1988. O texto é o que juristas chamam de taxativo, ou seja, não admite interpretações amplas. Para garantir o benefício, não basta que a doença seja grave ou incurável; ela precisa constar nominalmente na relação oficial da Receita Federal. E é aqui que mora o problema: a medicina avançou, mas o Código Tributário Nacional parece ter parado no tempo.

O impacto da interpretação literal do STJ

Embora o cenário seja rígido, existem brechas que trazem um sopro de esperança. Um exemplo emblemático é o das pessoas com visão monocular. Originalmente, a lei citava apenas a "cegueira". Após anos de disputa jurídica, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) interpretou que, como o legislador não especificou se a cegueira deveria ser total ou parcial, a visão em apenas um dos olhos também deveria ser contemplada.

Mas o impacto vai além desse exemplo isolado. Segundo o advogado especialista Thiago Helton, para o fisco, a gravidade do quadro clínico muitas vezes é secundária em relação ao enquadramento técnico. Na prática, isso significa que um paciente com uma síndrome rara degenerativa, que demanda gastos mensais altíssimos com cuidadores e medicação, pode continuar sendo tributado apenas porque sua condição não foi descoberta ou descrita em 1988.

O que está por trás da urgência de atualização

O conceito de doença rara, definido pelo Ministério da Saúde como aquela que afeta 65 pessoas a cada 100 mil, evidencia o isolamento desses pacientes. Enquanto a lista de isenção possui 16 itens, o abismo para as 8 mil condições conhecidas é imenso. A consequência é um efeito cascata: o cidadão gasta mais para sobreviver e recebe menos auxílio do Estado na forma de desoneração.

Especialistas da própria Receita Federal admitem que a modernização é necessária, mas reforçam que o papel da mudança cabe ao Poder Legislativo. O auditor-fiscal José Carlos Fernandes da Fonseca destaca que a mobilização social é a única via para que o Congresso Nacional atualize as normas e corrija distorções históricas que hoje pesam no bolso dos mais vulneráveis.

O futuro dessas famílias depende agora de uma revisão que reconheça a saúde como um critério dinâmico e não como uma lista estática. Enquanto o ajuste não vem, o caminho para muitos continua sendo a judicialização, uma via lenta e exaustiva que reforça a necessidade urgente de uma reforma tributária com olhar humano.

Mais notícias
CNPE eleva temporariamente mistura de etanol na gasolina para 32%
Energia CNPE eleva temporariamente mistura de etanol na gasolina para 32%
Senado aprova MP que endurece fiscalização do frete mínimo rodoviário
Transportes Senado aprova MP que endurece fiscalização do frete mínimo rodoviário
Banco Central mantém regras de limites do Pix no período noturno e aos fins de semana
Utilidade Banco Central mantém regras de limites do Pix no período noturno e aos fins de semana
Transnordestina em Pernambuco: Estudo enviado ao TCU revela impacto bilionário e projeta 22 mil empregos
Transnordestina Transnordestina em Pernambuco: Estudo enviado ao TCU revela impacto bilionário e projeta 22 mil empregos
ANP lança aplicativo que permite conferir qualidade e denunciar irregularidades em postos
Estratégico ANP lança aplicativo que permite conferir qualidade e denunciar irregularidades em postos
El Niño deve encarecer conta de luz no Brasil e afetar até beneficiários da Tarifa Social
Clima El Niño deve encarecer conta de luz no Brasil e afetar até beneficiários da Tarifa Social
Infraestrutura e edifícios concentram 76,5% do valor da construção civil, diz IBGE
Mercado Infraestrutura e edifícios concentram 76,5% do valor da construção civil, diz IBGE
IPVA, IPTU e ITR: dívidas públicas comuns podem sumir do CPF por nova regra do CNJ
Direitos IPVA, IPTU e ITR: dívidas públicas comuns podem sumir do CPF por nova regra do CNJ
Governo publica portarias que impõem restrições severas à publicidade de 'bets'
Regulação Governo publica portarias que impõem restrições severas à publicidade de 'bets'
Espírito Santo estuda zerar IPVA para carros elétricos e facilita recarga em prédios
Mobilidade Espírito Santo estuda zerar IPVA para carros elétricos e facilita recarga em prédios
Mais Lidas
Fora da Copa e preterido na Europa, João Gomes desabafa: "Deus tem o melhor"
Convocação Fora da Copa e preterido na Europa, João Gomes desabafa: "Deus tem o melhor"
Dataprev abre concurso público com salários de até R$ 10,6 mil e inscrições na FGV
Empregos Dataprev abre concurso público com salários de até R$ 10,6 mil e inscrições na FGV
Mega Sena acumula e próximo concurso pode pagar prêmio de R$ 25 milhões
Loterias Mega Sena acumula e próximo concurso pode pagar prêmio de R$ 25 milhões
PF aponta que Valdemar Costa Neto atuava como "líder" na Câmara sem ter mandato
Emendas PF aponta que Valdemar Costa Neto atuava como "líder" na Câmara sem ter mandato