0:00 Ouça a Rádio
Sáb, 23 de Maio
Busca
0:00 Ouça a Rádio
Imposto de Renda

O abismo entre a medicina e o fisco: Por que a lei do Imposto de Renda ignora doenças raras

A lei de isenção do IR de 1988 ignora milhares de doenças raras, sobrecarregando brasileiros com altos custos de tratamento. Entenda o que pode mudar.

23 mai 2026 - 12h59 Joice Gomes   atualizado às 13h01
O abismo entre a medicina e o fisco: Por que a lei do Imposto de Renda ignora doenças raras A defasagem na lista de isenções da Receita Federal gera impasses jurídicos e financeiros para pacientes de doenças raras. (Imagem: gerado por IA)

Milhares de brasileiros que convivem com patologias complexas e tratamentos de alto custo enfrentam hoje um desafio que vai muito além dos consultórios médicos: a defasagem da legislação tributária. Enquanto a medicina já cataloga cerca de 8 mil doenças raras no mundo, a Receita Federal permanece amarrada a uma lista de apenas 16 condições estabelecidas há mais de três décadas.

Essa discrepância cria uma injustiça financeira direta para aposentados e pensionistas com deficiência ou doenças raras que, apesar da gravidade de seus quadros, não conseguem o direito à isenção do Imposto de Renda. Na prática, o fisco ignora o impacto funcional e econômico de novos diagnósticos em prol de um texto literal e restritivo que não acompanhou a evolução da ciência.

O ponto central do conflito está na Lei 7.713, de 1988. O texto é o que juristas chamam de taxativo, ou seja, não admite interpretações amplas. Para garantir o benefício, não basta que a doença seja grave ou incurável; ela precisa constar nominalmente na relação oficial da Receita Federal. E é aqui que mora o problema: a medicina avançou, mas o Código Tributário Nacional parece ter parado no tempo.

O impacto da interpretação literal do STJ

Embora o cenário seja rígido, existem brechas que trazem um sopro de esperança. Um exemplo emblemático é o das pessoas com visão monocular. Originalmente, a lei citava apenas a "cegueira". Após anos de disputa jurídica, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) interpretou que, como o legislador não especificou se a cegueira deveria ser total ou parcial, a visão em apenas um dos olhos também deveria ser contemplada.

Mas o impacto vai além desse exemplo isolado. Segundo o advogado especialista Thiago Helton, para o fisco, a gravidade do quadro clínico muitas vezes é secundária em relação ao enquadramento técnico. Na prática, isso significa que um paciente com uma síndrome rara degenerativa, que demanda gastos mensais altíssimos com cuidadores e medicação, pode continuar sendo tributado apenas porque sua condição não foi descoberta ou descrita em 1988.

O que está por trás da urgência de atualização

O conceito de doença rara, definido pelo Ministério da Saúde como aquela que afeta 65 pessoas a cada 100 mil, evidencia o isolamento desses pacientes. Enquanto a lista de isenção possui 16 itens, o abismo para as 8 mil condições conhecidas é imenso. A consequência é um efeito cascata: o cidadão gasta mais para sobreviver e recebe menos auxílio do Estado na forma de desoneração.

Especialistas da própria Receita Federal admitem que a modernização é necessária, mas reforçam que o papel da mudança cabe ao Poder Legislativo. O auditor-fiscal José Carlos Fernandes da Fonseca destaca que a mobilização social é a única via para que o Congresso Nacional atualize as normas e corrija distorções históricas que hoje pesam no bolso dos mais vulneráveis.

O futuro dessas famílias depende agora de uma revisão que reconheça a saúde como um critério dinâmico e não como uma lista estática. Enquanto o ajuste não vem, o caminho para muitos continua sendo a judicialização, uma via lenta e exaustiva que reforça a necessidade urgente de uma reforma tributária com olhar humano.

Mais notícias
Cenário internacional dita ritmo do mercado e supera impacto eleitoral
Financeiro Cenário internacional dita ritmo do mercado e supera impacto eleitoral
Robôs gigantes assumem o trabalho mais perigoso do fundo do oceano
Tecnologia Robôs gigantes assumem o trabalho mais perigoso do fundo do oceano
China suspende JBS e outros dois frigoríficos brasileiros após alerta sanitário
Alerta Sanitário China suspende JBS e outros dois frigoríficos brasileiros após alerta sanitário
Segunda parcela do décimo terceiro do INSS começa a ser paga em maio
Aposentados Segunda parcela do décimo terceiro do INSS começa a ser paga em maio
Receita Federal libera maior lote de restituição do Imposto de Renda da história
Histórico Receita Federal libera maior lote de restituição do Imposto de Renda da história
Contas públicas: governo federal anuncia novo bloqueio de gastos para 'cortar na carne'
Contingenciamento Contas públicas: governo federal anuncia novo bloqueio de gastos para 'cortar na carne'
Escola para autismo e previdência: como decisões judiciais podem reduzir seu Imposto de Renda
Redução no IR Escola para autismo e previdência: como decisões judiciais podem reduzir seu Imposto de Renda
Receita Federal libera consulta ao maior lote de restituição da história: veja se você recebe
Consulta Restituição Receita Federal libera consulta ao maior lote de restituição da história: veja se você recebe
Bolsa Família: beneficiários com NIS final 5 recebem hoje; veja valores e quem tem direito a extras
Benefício Bolsa Família: beneficiários com NIS final 5 recebem hoje; veja valores e quem tem direito a extras
IR 2024: Como declarar plano de saúde e dependentes sem cair na malha fina
Malha Fina IR 2024: Como declarar plano de saúde e dependentes sem cair na malha fina
Mais Lidas
6 despesas que podem diminuir o valor do Imposto de Renda em 2026
Tributário 6 despesas que podem diminuir o valor do Imposto de Renda em 2026
Enem 2026 pode pagar quase R$ 1 mil para fiscais e aplicadores
Oportunidade Enem 2026 pode pagar quase R$ 1 mil para fiscais e aplicadores
Saiba como sacar o FGTS sem pagar taxas e evitar juros
Caixa Saiba como sacar o FGTS sem pagar taxas e evitar juros
Biometria facial no INSS passa a ser obrigatória em 2027
Tecnologia Biometria facial no INSS passa a ser obrigatória em 2027