A oceanógrafa brasileira Letícia Carvalho lidera os trabalhos da ISA para regulamentar a mineração no assoalho oceânico.
(Imagem: gerado por IA)
Mais de 50% da superfície do nosso planeta permanece como um território praticamente intocado pela exploração comercial, mas essa realidade está prestes a mudar sob a liderança de uma cientista brasileira. A oceanógrafa Letícia Carvalho, que assumiu o comando da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) em 2025, está na linha de frente para consolidar o chamado Código de Mineração.
Com sede em Kingston, na Jamaica, a ISA é um braço da ONU responsável por gerir recursos minerais em áreas que fogem às jurisdições nacionais. Na prática, estamos falando de uma área monumental que abrange 54% de todos os oceanos, onde se escondem metais essenciais para a nova economia global.
O grande desafio é transformar décadas de pesquisas científicas em um marco regulatório que permita a extração comercial sem comprometer ecossistemas sensíveis. E é aqui que o ponto central se revela: a mineração em águas profundas é vista como a peça-chave para a transição energética global, fornecendo minerais críticos para baterias e tecnologias de baixo carbono.
O que muda na prática com o novo código
Após mais de dez anos de negociações complexas entre 171 Estados-membros e a União Europeia, o Código de Mineração entra em sua fase decisiva. Até o final de 2024 ou início de 2025, o documento deve estabelecer as regras do jogo para que indústrias de segurança e energia comecem a operar em escalas comerciais nunca antes vistas no leito oceânico.
Segundo Letícia Carvalho, a regulação é o que impede danos irreversíveis. Sem esse conjunto de normas, o mundo não teria ferramentas para governar as atividades em profundidades que variam de 2 mil a 11 mil metros. O objetivo é criar uma coexistência pacífica entre a exploração econômica, a proteção ambiental e outros usos essenciais, como os cabos submarinos que transmitem os dados da internet global.
O que está por trás da preservação e dos dados
Um dos grandes orgulhos da gestão brasileira é o fortalecimento do Deep Data, o maior banco de dados sobre os fundos marinhos do mundo. Mais do que apenas minerar, a ISA agora exige que investidores e governos preservem amostras biológicas e sedimentares por pelo menos 15 anos. Esse esforço resultou na criação de um biobanco em parceria com a Coreia do Sul.
Essa estrutura permite que a ciência avance sem depender exclusivamente de recursos públicos. Na prática, os próprios interessados na exploração comercial financiam a conservação da biodiversidade. É um modelo de governança que une o interesse econômico à necessidade urgente de conhecer melhor as profundezas da Terra, antes mesmo de alterá-las.
Por que isso importa agora
A escolha de Letícia Carvalho para o cargo carrega um simbolismo prático. Como a primeira mulher, cientista e latino-americana a liderar o organismo, ela traz uma visão pragmática e inclusiva para uma área historicamente dominada por tradições militares e masculinas. Sua bagagem técnica, formada em universidades públicas brasileiras, é o que garante a integridade necessária para implementar as novas regras.
O impacto vai além da diplomacia. O sucesso desse código definirá como a humanidade lidará com sua última fronteira física. No futuro imediato, a capacidade de equilibrar a demanda por minerais com a integridade dos oceanos será o grande teste para a liderança global, colocando o Brasil como protagonista central em uma das discussões ambientais e econômicas mais críticas do século.