SUS transporta sangue raro de avião para atender paciente internado em Minas Gerais.
(Imagem: Paulo Cavalcanti/ HEMOCE)
O Sistema Único de Saúde (SUS) realizou o segundo transporte de sangue raro na cabine de um avião comercial para atender um paciente em estado grave. A bolsa saiu do Ceará na quinta-feira (8) e chegou a Juiz de Fora, em Minas Gerais, na sexta-feira (9). O paciente precisava de uma transfusão, mas os exames apontaram dificuldades para encontrar um tipo sanguíneo compatível.
O Ministério da Saúde organizou o transporte em parceria com companhias aéreas e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A medida busca reduzir o tempo de deslocamento das bolsas de sangue e facilitar o atendimento de pessoas que dependem de doações com características específicas.
Antes dessa mudança, as equipes enviavam as bolsas de sangue raro como carga. Essa modalidade pode exigir mais tempo para concluir o transporte. Com a possibilidade de levar o material na cabine de voos comerciais, o SUS amplia as alternativas para atender pacientes que precisam de transfusões com urgência.
Paciente precisava de sangue compatível após transplante renal
O paciente está internado em Minas Gerais e passou por um transplante renal. Durante os exames realizados antes da transfusão, a equipe identificou o anticorpo anti-Jsb, que dificultou a busca por sangue compatível.
Diante dessa situação, a rede de hemoterapia acionou o Cadastro Nacional de Sangue Raro (CNSR), vinculado ao Ministério da Saúde. O sistema ajudou a localizar um doador no Ceará.
O doador compareceu ao hemocentro, onde a equipe coletou e liberou a bolsa de sangue no mesmo dia. Devido à gravidade do quadro clínico, os responsáveis organizaram o envio gratuito do material por avião comercial, com embalagem apropriada e controle rigoroso de temperatura.
As equipes também convocaram outros doadores para atender às necessidades de transfusão do paciente.
Segundo Luciana Maria de Barros Carlos, coordenadora-geral de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, a parceria permite agilizar o atendimento de pessoas que precisam de sangue raro em diferentes estados brasileiros.
A atualização do acordo também permite organizar o transporte durante a noite, nos fins de semana e nos feriados, quando a rapidez pode fazer diferença no atendimento.
Primeiro transporte de sangue raro ocorreu em setembro
O Ministério da Saúde realizou a primeira operação desse tipo no Brasil em 12 de setembro. Na ocasião, uma bolsa de sangue raro viajou gratuitamente na cabine de um avião comercial de São Paulo para o Piauí.
O material atendeu um paciente com doença renal crônica que estava em estado grave e precisava de transfusão. Após os exames identificarem uma combinação sanguínea extremamente rara, a rede de hemoterapia acionou o cadastro nacional e encontrou um doador compatível em São Paulo.
A equipe responsável realizou a transfusão com sucesso e informou que o paciente apresentou bom estado de saúde após o procedimento.
As duas operações mostram como o transporte aéreo pode ajudar a conectar doadores e pacientes que vivem em estados diferentes, principalmente quando os serviços de saúde não encontram bolsas compatíveis na própria região.
Por que alguns tipos de sangue são considerados raros?
Os sistemas ABO e Rh ajudam a identificar os tipos sanguíneos mais conhecidos, mas existem outras características que influenciam a compatibilidade entre doadores e pacientes.
Um perfil sanguíneo entra na classificação de raro quando aparece em menos de uma a cada mil pessoas testadas. Nesses casos, encontrar uma bolsa compatível pode exigir buscas em diferentes regiões do país.
Exames como a fenotipagem e a genotipagem ajudam a identificar características específicas das células vermelhas do sangue, chamadas hemácias. Com esses resultados, os profissionais conseguem procurar doadores que apresentem as características necessárias para uma transfusão segura.
A rede de hemoterapia coordena esse trabalho, desde a identificação dos doadores até a coleta, o armazenamento e o transporte das bolsas.
Cadastro Nacional de Sangue Raro reúne mais de 2 mil doadores
Criado pelo Ministério da Saúde em 2013, o Cadastro Nacional de Sangue Raro reúne atualmente 2.032 doadores e já contribuiu para o atendimento de mais de 300 pacientes.
Quando um hemocentro não encontra sangue compatível no próprio estado, pode solicitar apoio ao cadastro. A equipe responsável procura possíveis doadores em outras regiões, organiza a convocação para a coleta e auxilia no transporte do material.
O Ministério da Saúde também prevê ampliar a identificação de pessoas com perfis sanguíneos raros e estruturar laboratórios de referência. Outra medida planejada envolve o congelamento de bolsas, técnica que pode permitir o armazenamento do sangue por até dez anos.
O país também prevê aderir a uma rede mundial de sangue raro em outubro. Com essa integração, o Brasil poderá solicitar bolsas a outros países quando necessário e colaborar com o atendimento de pacientes no exterior.
Acordo aéreo também atende pacientes que precisam de transplantes
A parceria entre o Ministério da Saúde e as companhias aéreas já contempla o transporte gratuito de órgãos destinados a transplantes. Em 2025, a Central Nacional de Transplantes intermediou 2.016 transportes: 1.716 ocorreram em voos comerciais e 300 utilizaram aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB).
Com a inclusão do sangue raro no acordo, essa estrutura também permite transportar bolsas compatíveis entre estados com mais rapidez. A iniciativa facilita o acesso ao material necessário para transfusões, mesmo quando o doador está a milhares de quilômetros do paciente.
Pollyana Barros Leite integra a equipe de jornalismo, atuando na área de edição de notícias. É formada em Direito e Biologia e possui experiência em produção e edição de conteúdo jornalístico, com ênfase em programas gov...
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