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Impacto Ambiental

A sede da inteligência artificial: Amazon consumiu 273 milhões de litros de água no Brasil em um ano

A corrida pela inteligência artificial exige um volume massivo de água para resfriamento. No Brasil, a Amazon consumiu 273 milhões de litros em um ano.

18 jun 2026 - 08h59 Joice Gomes   atualizado às 09h02
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A sede da inteligência artificial: Amazon consumiu 273 milhões de litros de água no Brasil em um ano Data centers exigem sistemas de resfriamento massivos que consomem milhões de litros de água anualmente para sustentar a infraestrutura da inteligência artificial. (Imagem: gerado por IA)

Para manter os servidores de inteligência artificial funcionando sem interrupções, a Amazon Web Services (AWS) retirou 273,3 milhões de litros de água da natureza no Brasil apenas em 2025. O dado, revelado recentemente pela gigante da tecnologia, expõe o custo físico e ambiental da infraestrutura digital que sustenta desde chatbots até grandes sistemas bancários.

A sede por recursos hídricos surge em um momento de expansão agressiva. Com o objetivo de quadruplicar a capacidade de seus servidores no país, as "big techs" enfrentam agora um escrutínio crescente sobre o impacto de suas "fábricas de dados" em um território marcado por crises hídricas recorrentes. Na prática, a nuvem não é feita de vapor, mas de hardware que precisa ser resfriado constantemente para não fundir.

A AWS decidiu abrir parte de seus indicadores de sustentabilidade para se antecipar às críticas globais. Em escala mundial, a companhia retirou quase 9,5 bilhões de litros de água no último ano. No Brasil, embora o volume de 273 milhões de litros pareça astronômico, a empresa argumenta que sua operação é mais eficiente do que a média do setor, utilizando apenas 0,12 litro para cada quilowatt-hora consumido.

O que muda na prática com o resfriamento por evaporação

A estratégia da Amazon para mitigar o consumo foca no clima tropical brasileiro. Segundo Beau Schilz, líder global de recursos hídricos da AWS, os sistemas são projetados para usar o ar externo no resfriamento durante 95% do tempo. A água só entra em cena como uma espécie de "esponja térmica" quando os termômetros ultrapassam os 29°C.

Essa escolha técnica revela um dilema energético profundo: usar água permite que a empresa evite o acionamento de resfriadores elétricos pesados, que aumentariam o consumo de energia em até 35%. Em períodos de calor intenso, quando a rede elétrica brasileira já está sob pressão, a AWS opta por consumir água para não sobrecarregar ainda mais o sistema elétrico nacional, que depende da vazão das hidrelétricas.

Entretanto, o ponto central do debate é a transparência. Ambientalistas criticam o fato de os dados serem apresentados de forma consolidada. Sem saber exatamente quanto cada instalação consome em bacias hidrográficas específicas, comunidades locais e gestores públicos têm dificuldade em medir o estresse hídrico real causado por esses gigantes tecnológicos.

Por que isso importa para o futuro do país

O Brasil está pisando em um terreno frágil. Enquanto a demanda por processamento de IA generativa cresce exponencialmente, a capacidade de gerar energia limpa e garantir o abastecimento de água não segue o mesmo ritmo. O recente anúncio do megaempreendimento "Rio AI City", com investimento de R$ 3 bilhões, já acendeu o alerta em parlamentares fluminenses sobre o impacto no saneamento básico da região.

A reação política reflete um temor global. Em cidades como Seattle, o licenciamento de novos data centers enfrenta resistência justamente pela voracidade no uso de recursos públicos. Schilz defende que há um "mal-entendido" sobre os números, alegando que as outorgas de água pedidas representam o consumo máximo teórico, e não o uso real cotidiano.

O que pode acontecer a partir de agora

Como uma forma de compensação, a Amazon prometeu tornar-se "água positiva" até 2030, devolvendo ao meio ambiente mais do que consome. No Brasil, o compromisso é repor 550 milhões de litros a partir de 2026, investindo em tecnologias de detecção de vazamentos em redes públicas e no reflorestamento da Mata Atlântica.

Mas o impacto vai além do marketing ambiental. A sobrevivência e a expansão da economia digital no Brasil dependerão de uma conciliação difícil entre a fome tecnológica por recursos e a resiliência climática das nossas cidades. A inteligência artificial pode ser o futuro, mas sua sustentação ainda depende de recursos muito finitos e terrestres.

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