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Empreendedorismo

Classe C assume protagonismo no empreendedorismo brasileiro e transforma busca por renda em projeto de vida

26 mar 2026 - 08h58 Joice Gomes
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Classe C assume protagonismo no empreendedorismo brasileiro e transforma busca por renda em projeto de vida Estudo aponta que a classe C lidera o empreendedorismo no Brasil, troca o emprego formal pelo próprio negócio e ganha peso na geração de renda, empregos e inclusão social. (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A classe C consolidou-se como o principal motor do empreendedorismo no Brasil, concentrando a maior parte dos donos de pequenos negócios e trabalhadores por conta própria. Em vez de recorrer ao próprio negócio apenas em momentos de aperto, uma parcela crescente dessa população enxerga o empreendedorismo como projeto de vida, capaz de oferecer mais autonomia, renda e qualidade de vida do que o emprego formal tradicional.

O levantamento produzido em parceria entre o Instituto Locomotiva e o Sebrae indica uma mudança estrutural no mundo do trabalho. A carteira assinada deixa de ser o objetivo principal de muitos brasileiros da classe média, enquanto a ideia de “ter o próprio negócio” ganha espaço como símbolo de realização e ascensão social, especialmente em grandes centros urbanos e nas periferias.

Ascensão social e fuga da rigidez do emprego formal

Entre os principais motivos apontados pelos entrevistados para empreender estão a flexibilidade de horário, a possibilidade de trabalhar mais perto de casa e o desejo de romper com ambientes corporativos considerados desgastantes. Muitos relatam que a rotina de longos deslocamentos, jornadas extensas e falta de reconhecimento estimulou a busca por uma alternativa em que pudessem organizar o próprio tempo e ampliar ganhos.

Lideranças ligadas ao apoio a pequenos negócios destacam que essa guinada não se limita à renda individual. Ao abrir um comércio, oferecer serviços ou formalizar atividades como MEI, milhares de empreendedores da classe C passam a gerar vagas de trabalho em suas regiões, fortalecer cadeias locais de consumo e movimentar bairros que antes dependiam majoritariamente de empregos formais em grandes empresas.

Recordes de novos negócios e consolidação de empresas

Dados recentes sobre a dinâmica empresarial no país apontam que os pequenos negócios vivem uma fase de expansão. Após anos marcados por crises econômicas e alta informalidade, a taxa de pessoas que já têm ou estão abrindo um negócio cresceu e alcançou o maior patamar dos últimos anos, segundo pesquisas internacionais de monitoramento do empreendedorismo.

O número de empreendedores que conseguem manter a empresa aberta por mais de três anos também aumentou, o que sinaliza maior maturidade e capacidade de sobrevivência dos negócios. Em 2025, o país registrou milhões de novas empresas abertas, sobretudo micro e pequenos empreendimentos, e esse movimento teve forte participação da classe C, que vem ocupando o espaço de protagonista na criação de novas atividades econômicas.

Classe C como eixo da economia popular

Responsável por grande parte do consumo nacional, a classe C agora ocupa também o centro da cena empreendedora. Pesquisadores que estudam esse segmento destacam que ele vive um momento de incerteza em relação ao futuro no mercado formal, mas, ao mesmo tempo, demonstra disposição para assumir riscos e testar ideias de negócio em áreas próximas do cotidiano, como alimentação, serviços de beleza, construção, educação, comércio de bairro e soluções digitais simples.

Entre os microempreendedores individuais, muitos são trabalhadores que transformaram atividades informais em negócios registrados, aproveitando a tributação simplificada e a possibilidade de emissão de nota fiscal. A expansão dessa formalização levou o poder público a adaptar regras e sistemas, inclusive com mudanças previstas na numeração do CNPJ a partir de 2026, para garantir capacidade de registro diante do aumento constante de empresas.

Empreendedorismo por vocação e por necessidade

Especialistas alertam, contudo, que é preciso diferenciar o empreendedor que escolhe abrir um negócio para crescer e inovar daquele que se formaliza por falta de alternativas. Uma parcela relevante dos registros é formada por pessoas que perderam o emprego, foram empurradas para arranjos precários de trabalho ou passaram a atuar como prestadoras de serviço sem a proteção típica de um vínculo empregatício.

Na avaliação de economistas e pesquisadores, o empreendedorismo que realmente contribui para o desenvolvimento é aquele que aumenta a produtividade, introduz novos produtos ou serviços e amplia a capacidade produtiva do país. Quando a abertura de empresa se torna apenas uma forma de sobrevivência ou de mascarar relações de trabalho, os resultados tendem a ser mais frágeis e sujeitos à alta rotatividade e ao endividamento.

Perfil em transformação e novos protagonistas

Os estudos mais recentes sobre o tema apontam que o perfil do empreendedor brasileiro também está mudando. A participação de jovens cresce ano a ano, com destaque para a faixa entre 18 e 29 anos, que vê no próprio negócio uma alternativa à dificuldade de inserção no mercado formal. Mulheres e pessoas negras também ganham espaço, embora ainda enfrentem barreiras de acesso a crédito, redes de contato e oportunidades de capacitação.

Pesquisas internacionais de empreendedorismo, desenvolvidas em parceria com instituições brasileiras, indicam que o país já figura entre aqueles com maior envolvimento da população adulta em negócios em estágio inicial ou consolidado. A presença crescente da classe C nesse cenário ajuda a explicar essa posição e mostra um ambiente em que a cultura de empreender se espalha para além das elites econômicas.

Desafios de financiamento e capacitação

Apesar da vitalidade, o avanço do empreendedorismo da classe C enfrenta obstáculos importantes. Linhas de crédito com juros compatíveis, acesso a orientação de gestão e apoio tecnológico ainda não alcançam todos os territórios de forma equilibrada. Muitos empreendedores seguem recorrendo a empréstimos pessoais, cartões de crédito ou ajuda familiar para investir em estoque, equipamentos e reformas.

Instituições de apoio ao micro e pequeno empresário defendem a ampliação de programas de capacitação em gestão financeira, marketing digital, controle de estoque e inovação simples. Ao mesmo tempo, defendem a necessidade de desburocratizar ainda mais a abertura e a manutenção de empresas, reduzindo custos fixos que pesam de forma desproporcional sobre negócios de pequeno porte.

Impacto na economia e perspectivas para os próximos anos

O peso dos pequenos negócios na economia brasileira já é expressivo, com participação relevante na geração de empregos formais e na composição do Produto Interno Bruto. A liderança da classe C nessa frente reforça o papel do empreendedorismo como instrumento de inclusão produtiva, distribuição de renda em nível local e dinamização de cadeias econômicas regionais.

Para os próximos anos, a tendência é que esse protagonismo se mantenha, especialmente se houver continuidade de políticas de estímulo à inovação, educação empreendedora e crédito orientado. A combinação entre o apetite da classe C para empreender e um ambiente de negócios mais favorável pode transformar essa onda em um ciclo sustentável de crescimento, reduzindo desigualdades e oferecendo novas perspectivas de mobilidade social.

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