Pesquisa italiana define novos critérios científicos para identificar a lateralidade motora em cães de diversas raças.
(Imagem: gerado por IA)
Observe o seu cão na próxima vez que ele for descer um degrau ou tentar segurar um brinquedo. A forma como ele utiliza os membros pode revelar muito mais do que apenas um hábito motor; pode indicar traços fundamentais de sua personalidade e saúde.
Pesquisadores na Itália acabam de publicar na prestigiada revista Royal Society Open Science o primeiro método padronizado para identificar se um cão é destro ou canhoto. Batizado de Doginburgh Inventory, o teste vai além da simples observação e categoriza a lateralidade canina com uma precisão inédita pela ciência veterinária.
Até então, os estudos sobre a preferência das patas eram frequentemente inconclusivos ou superficiais. Com a nova ferramenta, os especialistas esperam entender como a dominância cerebral que dita qual lado do corpo o animal prefere usar, está conectada a comportamentos como ansiedade e agressividade.
O que está por trás da pata favorita
Para chegar a esses resultados, a equipe analisou 43 cães de diversas raças submetendo-os a desafios práticos. O teste mais famoso é o método Kong, onde o animal deve usar as patas para estabilizar um brinquedo recheado com comida, revelando qual membro tem mais destreza.
O grande diferencial do estudo é a criação de cinco níveis de lateralidade: canhotos fortes, canhotos fracos, ambidestros, destros fracos e destros fortes. Na prática, isso acaba com a ideia de que o cão apenas "usa um lado", mostrando que a intensidade dessa preferência varia drasticamente entre os indivíduos.
Curiosamente, os dados mostraram um padrão ligado ao sexo: os machos apresentaram uma tendência significativamente maior ao uso da pata esquerda em tarefas complexas. Já nas fêmeas, essa preferência não foi identificada de forma estatisticamente relevante, sugerindo uma influência hormonal no desenvolvimento motor.
Como isso afeta o comportamento e a saúde
Mas por que essa descoberta é tão relevante para quem tem um pet em casa? A lateralidade motora é um reflexo direto de como o cérebro do animal está organizado. Estudos anteriores sugerem que cães canhotos podem processar informações de forma diferente, o que pode estar ligado a uma maior sensibilidade a estímulos de medo.
Embora o estudo ainda seja considerado uma "prova de conceito" devido ao tamanho da amostra, ele abre portas para um futuro onde a escolha da pata possa ajudar em diagnósticos comportamentais precoces. Entender se o seu cão é um "canhoto forte" pode ajudar adestradores a preverem reações ao estresse de forma personalizada.
A ciência canina caminha para um nível de profundidade que reflete o que já fazemos com seres humanos. No futuro, o simples gesto de oferecer a pata pode não ser apenas um truque treinado, mas uma janela aberta para a mente e o bem-estar do seu melhor amigo.