O sociólogo Miguel de Barros alerta sobre o avanço de corporações estrangeiras em territórios tradicionais no Brasil e na África.
(Imagem: Luiz Cláudio/ Agência Brasil)
A corrida global por minerais estratégicos, conhecidos como terras raras, deixou de ser um debate puramente econômico para se transformar em uma ameaça direta à integridade dos territórios tradicionais no Brasil e na África. Essa disputa silenciosa, travada nos bastidores das grandes corporações do Norte Global, coloca comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas na linha de frente de um novo tipo de exploração internacional.
O alerta foi feito pelo renomado sociólogo e ambientalista guineense Miguel de Barros, durante conferência no 14º Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros (Copene), realizado na Universidade de Brasília (UnB). Para o cientista social, eleito uma das personalidades mais influentes da África Ocidental, o que está em curso é um sofisticado projeto neocolonial fundamentado no monopólio de recursos naturais e no controle tecnológico.
Na prática, a busca por esses insumos afeta profundamente a soberania de nações em desenvolvimento. "Eles querem ter controle daquilo que chamam de terras raras. Não só para manipulação e controle de patentes, mas para a produção de instrumentos bélicos", destacou Barros, evidenciando o interesse militar e industrial que ronda esses minerais.
O que está por trás da corrida pelas terras raras
Esses minerais são essenciais para a fabricação de baterias de veículos elétricos, smartphones, turbinas eólicas e bombas nucleares. Sob o pretexto da transição ecológica e do avanço tecnológico, corporações estrangeiras pressionam fronteiras ambientais, visando especialmente a Amazônia.
Barros argumenta que controlar a maior floresta tropical do planeta significa garantir capacidade de produção de alimentos, além de imensas reservas de água e energia limpa. "Ter esse controle confere o poder de fazer guerra com quem quiserem", alertou o sociólogo, estabelecendo uma conexão direta entre preservação ambiental e estabilidade geopolítica global.
E é aqui que está o ponto central: os financiadores e donos dessas indústrias modernas são, historicamente, herdeiros do antigo sistema de colonização. Agora, eles remodelam suas estratégias para assegurar que os países do Sul Global permaneçam apenas como exportadores de matéria-prima barata e vítimas de danos socioambientais.
Inteligência Artificial e o monopólio do conhecimento
Mas o impacto vai muito além da extração mineral. De acordo com o ambientalista, o novo colonialismo se expande de forma invisível através do desenvolvimento da inteligência artificial (IA) e de tecnologias proprietárias.
Para Barros, o modelo atual de IA funciona como uma ferramenta de apropriação e esvaziamento dos saberes tradicionais dos povos negros e originários. Ao invés de promover a inclusão, o setor financeiro tecnológico estaria automatizando processos para substituir a força humana e concentrar patentes no Norte Global, incluindo manipulações avançadas no campo da biomedicina.
Como forma de resistência, ele propõe uma contracorrente digital. É urgente que as populações marginalizadas desenvolvam e tenham acesso a suportes tecnológicos próprios, capazes de proteger seus conhecimentos ancestrais contra o patenteamento indevido e o avanço corporativo.
O que pode acontecer a partir disso
As consequências dessa assimetria tecnológica já foram sentidas em momentos de crise recente. Barros relembrou a desigualdade na distribuição de vacinas contra a Covid-19, ressaltando que, até o momento, apenas um quarto da população africana recebeu as duas doses básicas do imunizante devido à falta de transferência de patentes e tecnologia.
Essa seletividade sobre o direito à vida, que expõe uma faceta dolorosa do racismo estrutural global, reforça a necessidade de união entre a academia e o poder público na formulação de políticas de salvaguarda. O resgate e a valorização das práticas tradicionais de manejo e sobrevivência são os escudos mais eficientes na defesa territorial.
O futuro das democracias do Sul Global está intrinsicamente ligado à preservação de suas riquezas. A disputa silenciosa que ocorre em solo brasileiro não é um evento isolado, mas uma peça-chave no tabuleiro da geopolítica mundial, onde a autonomia econômica, a soberania energética e a sobrevivência dos povos tradicionais continuam sendo o verdadeiro prêmio em jogo.