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O renascer da Amazônia

Amazônia respira com volta das águas em 2025, mas cenário hídrico do Brasil ainda é crítico

A Amazônia registrou recuperação hídrica em 2025, superando a média histórica. Contudo, o MapBiomas alerta para perdas no Pantanal e o clima instável.

16 jun 2026 - 08h25 Joice Gomes   atualizado às 08h28
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Amazônia respira com volta das águas em 2025, mas cenário hídrico do Brasil ainda é crítico Leito de rio na Amazônia voltando a subir após período de estiagem prolongada. (Imagem: gerado por IA)

A Amazônia brasileira iniciou o ano de 2025 com um alívio há muito esperado: o retorno das águas que voltaram a preencher os leitos de rios e lagos castigados por dois anos de uma seca histórica. De acordo com o novo relatório da plataforma MapBiomas, divulgado nesta terça-feira (16), a região registrou níveis de superfície hídrica 2,6% acima de sua média histórica, um respiro vital para o bioma que concentra quase dois terços de toda a água doce do país.

O Brasil detém, sozinho, 12% das reservas mundiais de água doce, e a recuperação na maior floresta tropical do mundo é resultado direto de precipitações mais generosas em relação ao ano anterior. Na prática, esse volume adicional representa uma vitória momentânea para a biodiversidade e para as comunidades que dependem do transporte fluvial e da pesca para sobreviver.

Mas, apesar do cenário positivo no curto prazo, a euforia dos pesquisadores é contida. O levantamento destaca que a estabilidade do ecossistema ainda caminha sobre gelo fino, com sinais claros de que o regime hídrico está se tornando imprevisível e perigosamente volátil.

O que está por trás da recuperação amazônica

A melhora nos índices foi impulsionada por chuvas que superaram as expectativas meteorológicas, mas Bruno Ferreira, pesquisador da equipe Amazônia do MapBiomas, alerta que o fenômeno não apaga as cicatrizes deixadas pelo desmatamento. O especialista aponta que a frequência cada vez maior de eventos extremos, alternando entre secas recordes e cheias intensas, é um sinal de alerta sobre o uso da terra e as mudanças climáticas globais.

E é aqui que está o ponto central: a floresta está perdendo sua capacidade natural de regular o ciclo das águas. Quando o solo é exposto e a vegetação removida, a umidade que deveria ser reciclada pela evapotranspiração se perde, tornando o bioma dependente de frentes frias e fenômenos externos para manter seu equilíbrio hídrico básico.

O contraste dramático com o Pantanal

Enquanto o Norte celebra o retorno das cheias, o Centro-Oeste brasileiro vive uma realidade diametralmente oposta. O Pantanal encerrou o último ciclo com níveis de água 56% abaixo de sua média histórica. Este é, sem dúvida, o pior resultado entre todos os biomas brasileiros, consolidando a região como o ecossistema mais fragilizado do país no momento.

Embora tenha havido uma leve melhora em relação a 2024, ano marcado pela seca mais severa em décadas, o Pantanal ainda luta para manter suas áreas alagadas fundamentais. A situação é tão crítica que o bioma corre o risco de sofrer transformações permanentes em sua paisagem, afetando desde a migração de aves até a pecuária extensiva que define a economia local.

O que pode acontecer a partir de agora

O panorama nacional revela uma tendência de desertificação hídrica silenciosa. Nas últimas quatro décadas, o Brasil perdeu cerca de 2,6 milhões de hectares de superfície aquática, uma área equivalente ao território do Haiti que simplesmente desapareceu do mapa hídrico nacional. É um dado que assusta e coloca em perspectiva a fragilidade dos nossos recursos naturais.

Para complicar o cenário, a agência meteorológica americana (NOAA) já sinaliza a intensificação do El Niño. Historicamente, este fenômeno atua como um gatilho para novas secas em partes da Amazônia, o que sugere que o alívio registrado em 2025 pode ser passageiro. A vigilância precisará ser constante até o fim do ano.

O futuro da água no Brasil depende agora menos da sorte com as chuvas e mais de políticas de conservação que protejam as nascentes e as margens dos grandes rios. Sem uma estratégia de longo prazo, a abundância vista na Amazônia hoje pode se tornar apenas uma memória em um país que, paradoxalmente, vê suas reservas de vida diminuírem a cada década.

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