Escolas de samba do Rio apostam na literatura e levam clássicos nacionais para a Sapucaí no Carnaval 2027
(Imagem: Reprodução / Redes Sociais)
Ainda estamos em novembro, mas para os sambistas de plantão o carnaval já começou há meses. Desde o momento em que as escolas começam a divulgar as escolhas de enredo para o carnaval seguinte, muitas expectativas são criadas entre as comunidades, e para o desfile de 2027 a grande aposta dos carnavalescos foi levar a literatura nacional para a Marquês de Sapucaí. Só no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro serão quatro livros que se transformarão em enredos.
A Unidos de Vila Isabel é uma das que promete emocionar a avenida ao adaptar o fenômeno Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. Conduzida pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, a narrativa será contada sob a perspectiva de uma entidade encantada, levando para a pista a religiosidade do Jarê, as raízes do sertão baiano e a luta ancestral de uma comunidade pela posse da terra.
Na Unidos da Tijuca, a inspiração vem da prosa cearense de Socorro Acioli e seu celebrado livro A Cabeça do Santo. Com assinatura de Lucas Milato, o desfile vai retratar a história fascinante da estátua gigante e inacabada de Santo Antônio na cidade de Caridade, misturando a fé popular com causos e o misticismo sertanejo.
O Acadêmicos do Salgueiro também recorreu às páginas de um livro para propor um debate necessário. Baseado na obra historiográfica Laroyê Xica da Silva, o enredo assinado por Jorge Silveira e Leonardo Antan vai desconstruir estigmas antigos para apresentar um olhar renovado sobre a figura histórica.
A escolha carrega ainda uma forte carga de nostalgia, já que o Salgueiro marcou época ao cantar Xica da Silva em 1963, no antológico desfile que inaugurou a era dos desfiles na Avenida Presidente Vargas.
Para completar essa lista, a estreante Unidos de Maricá traz a trajetória de Darcy Ribeiro com o enredo Utopia Brasil, idealizado por Edson Pereira. O desfile vai passear pelas memórias de infância do antropólogo em Montes Claros e destacar seus maiores legados para a educação e a cultura do país, como a fundação da UnB, os Cieps e a concepção do próprio Sambódromo carioca.
Sucesso em carnavais passados
Essa aproximação do samba com as páginas, no entanto, não surge do nada; ela consolida um movimento que já vinha ganhando força nos carnavais mais recentes.
Em 2024, a Acadêmicos do Grande Rio arrebatou a pista ao transformar o livro Meu destino é ser onça, de Alberto Mussa, no enredo "Nosso destino é ser onça", enquanto a Portela emocionou a avenida com uma adaptação do aclamado romance histórico Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves.
No mesmo ano, o Acadêmicos do Salgueiro levou para o desfile "Hutukara" a potência do livro A Queda do Céu, escrito pelo líder indígena Davi Kopenawa com o antropólogo Bruce Albert.
Já no Carnaval de 2026, a Unidos da Tijuca manteve esse diálogo vivo ao celebrar a trajetória e a escrita de Carolina Maria de Jesus, mostrando como o mercado editorial e a memória literária continuam alimentando a poesia da Sapucaí.
Formada pela Universidade dos Guararapes, possui uma trajetória marcada pela diversidade de editorias, tendo atuado por dois anos no caderno de Esportes e por um ano nas editorias de Política e Vida Urbana.
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