BookTok
(Imagem: Reprodução / Internet)
Basta deslizar a tela por alguns minutos para se deparar com leitores chorando ao fechar um capítulo ou debatendo teorias sobre seus personagens favoritos. Movido pela paixão e pelo apelo visual, o BookTok — a comunidade literária do TikTok — revolucionou a relação dos brasileiros com os livros.
Mais do que compartilhar resenhas, o movimento criou um novo hábito de consumo, enchendo livrarias físicas e transformando o ato de ler em um evento coletivo e altamente viral.
O alcance expressivo dessa tendência foi mapeado por um estudo recente do centro de pesquisas Reglab. De acordo com o levantamento, publicações sobre literatura ultrapassaram 12 bilhões de visualizações só em 2025, com a hashtag #BookTokBrasil registrando, sozinha, mais de 3 bilhões de acessos no período.
A força desse engajamento digital se refletiu diretamente no faturamento das livrarias: segundo o SNEL e a Nielsen BookData, o setor movimentou R$ 2,49 bilhões e vendeu 48 milhões de livros no ano passado, uma alta de 7,8% em relação a 2024.
Esse ecossistema digital passou a ditar o ritmo do mercado, transformando criadores de conteúdo em um termômetro essencial para as estratégias editoriais. No entanto, por trás de números tão grandiosos, o que impulsiona o movimento é a sensação de pertencimento vivida no cotidiano dos leitores.
Para a estudante de jornalismo Thawane Lima, de 25 anos, a plataforma ressignificou o próprio ato de ler.
"Ler pode parecer algo solitário, mas, na prática, é uma atividade muito coletiva. É como encontrar muitos amigos que gostam das mesmas coisas que você, e as redes sociais só ajudam a criar essas interseções", aponta.
Assídua na rede, Thawane conta que já comprou obras impulsionada por conteúdos virais, mas ressalta que a expectativa nem sempre corresponde à realidade.
"Muitas vezes, o livro te traz as mesmas sensações que você viu no vídeo; em outras, quase podemos chamar de propaganda enganosa. As sensações mudam dependendo da escrita", explica.
Além disso, a estudante alerta para o lado B desse engajamento acelerado, chamando a atenção para o consumismo despertado pelas tendências passageiras.
"O hábito da leitura também tem seu lado consumista e seus pontos virais. A quantidade de livros na estante ou o ato de comprar 'só mais um e-book' por causa de uma história que parece legal são exemplos disso. Consequentemente, você pode acabar nunca lendo aquele livro que comprou só porque estava muito viralizado. É como se o hábito da leitura nem sempre combinasse com uma prática de consumo consciente", reflete.
Se por um lado o consumo por impulso é um desafio, por outro, a capacidade de capturar a atenção em um feed infinito exige estratégias refinadas de comunicação. Para a publicitária Giovanna Thomé, o verdadeiro "segredo" do sucesso do BookTok para engajar e converter em vendas reside na estética e na curiosidade.
"Hoje em dia, manter a atenção das pessoas por mais de um minuto é algo muito difícil. Uma maneira que noto que as pessoas, sejam editoras, influenciadores e até mesmo os escritores, utilizam é apostar muito no lado visual, com artes dos personagens, cenas que despertam a curiosidade do 'o que vem depois?' e moodboards que mostram o conceito por trás da trama", analisa Giovanna.
A publicitária observa que até a tradicional crítica de livros ganhou novos contornos no ambiente digital.
"As famosas resenhas literárias vêm se reinventando com o passar do tempo, usando músicas, relatos curtos, comparações com outros enredos ou até fatos históricos que possam despertar ainda mais o interesse das pessoas. De forma geral, é muito pelo apelo visual e pelo gatilho da curiosidade", conclui.
Essa mudança na dinâmica de consumo forçou o próprio mercado a se remodelar. Segundo Giovanna, é evidente a virada de chave nas corporações para acompanhar a linguagem dinâmica e informal da plataforma.
"Hoje em dia a maioria das marcas aposta em uma comunicação mais humanizada e menos formal. É fácil notar como essas empresas se fazem presentes no Instagram e no TikTok mostrando os bastidores e quem trabalha por trás dos livros, para provar que existem pessoas ali que realmente entendem os consumidores", destaca.
Ela ressalta ainda que a adoção de áudios em alta e trends do momento tornou-se ponte direta de diálogo.
"O uso de formatos populares ajuda na aproximação, pois insere as obras no contexto do dia a dia do leitor. Claro que cada editora respeita sua identidade, como vemos na diferença de tom entre a Arqueiro e a Companhia das Letras, mas o foco principal passou a ser falar a mesma língua do público", pontua a publicitária.
E o poder dessa comunicação vai além do impulsionamento de lançamentos contemporâneos: o movimento também tem se mostrado capaz de resgatar clássicos da literatura.
Exemplo emblemático desse fenômeno foi a recente redescoberta de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Após uma onda de vídeos virais, iniciada pela reação entusiasmada de uma criadora de conteúdo norte-americana, o clássico de 1881 voltou a figurar no topo das buscas e das listas de mais vendidos no Brasil, provando que a paixão compartilhada em vídeos de poucos segundos pode dar uma nova vida até mesmo às obras mais consagradas.
Formada pela Universidade dos Guararapes, possui uma trajetória marcada pela diversidade de editorias, tendo atuado por dois anos no caderno de Esportes e por um ano nas editorias de Política e Vida Urbana.
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