Durante a Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação, o TRE RJ desmontou os circuitos internos da urna eletrônica.
(Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Na tentativa de combater a desinformação que ainda cerca o debate político brasileiro, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) realizou um ato incomum nesta segunda-feira: desmontou uma urna eletrônica diante de jornalistas e fiscais. A iniciativa expõe as vísceras de um sistema que, embora invisível aos olhos do eleitor comum, protege a soberania de milhões de votos por meio de uma engenharia de segurança de múltiplas camadas.
O movimento estratégico faz parte da Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação. O objetivo é transparente: neutralizar narrativas conspiratórias e demonstrar de forma prática que o equipamento é imune a ataques externos, funcionando de forma totalmente isolada.
De acordo com o presidente do TRE-RJ, Claudio de Mello Tavares, a segurança do sistema não é uma escolha tecnológica conveniente, mas a garantia da soberania popular. "Não existe, nesse país, um sistema mais aberto, mais inspecionado e mais testado do que ela", afirmou o magistrado, lembrando que partidos políticos, Forças Armadas, universidades e o Ministério Público têm acesso contínuo ao código-fonte para auditorias.
O que está por trás da segurança física e digital
Durante a demonstração técnica conduzida por Michel Kovacs, secretário de Tecnologia da Informação do órgão, foram exibidos os detalhes internos do aparelho. Longe de ser um computador comum, a urna é blindada por travas físicas e digitais, incluindo lacres especiais produzidos pela Casa da Moeda que deixam vestígios imediatos caso ocorra qualquer tentativa de violação física externa.
Na prática, o segredo da segurança digital está na redundância e no isolamento absoluto. A urna eletrônica não possui qualquer placa de rede, antena Wi-Fi ou conexão com a internet. Os dados de cada seção eleitoral são gravados simultaneamente na memória interna e em mídias externas criptografadas.
Mas o impacto vai além do dia da eleição. Se o equipamento falhar no meio do dia de votação, Kovacs explicou que há um protocolo rigoroso de contingência. Uma mídia especial transfere com segurança absoluta os dados da seção para uma urna de reserva. Esse processo garante que a votação continue exatamente de onde parou, sem perda de um único voto e sem brechas para manipulações.
Por que o retorno ao voto impresso é visto como retrocesso
Questionado sobre os constantes apelos políticos pela volta do voto em cédula de papel, o especialista foi categórico ao classificar a ideia como um retrocesso histórico. A máquina eletrônica foi adotada no Brasil em 1996 justamente para extinguir o histórico de fraudes sistemáticas que marcavam as apurações manuais no país.
Naquela época, o sumiço de cédulas, a adulteração de mapas de apuração e as rasuras intencionais eram problemas crônicos que distorciam a vontade popular. Além disso, a contagem manual de votos em um país de dimensões continentais como o Brasil exigiria um custo logístico astronômico e abriria margem para erros humanos inevitáveis.
Com o avanço das discussões sobre a integridade democrática para os próximos pleitos, a transparência ativa da Justiça Eleitoral torna-se uma arma essencial. Ao abrir o hardware e decifrar o software para a sociedade, as instituições buscam consolidar a certeza de que a tecnologia, longe de ser uma ameaça, continua sendo a principal defensora da democracia brasileira.